quinta-feira, 22 de março de 2018

o teu abraço...

Vieira de Leiria, 22 de março de 2018 - 01h10

 

- fecha os olhos... vou levar-te comigo...
- onde? - perguntas virando o rosto na minha direcção.
- é surpresa... confias em mim?
- sim, claro que confio.
- durante uns minutos vais usar esta venda.
- hmm... uma venda a estas horas? - dizes enquanto sorris e piscas o olho esquerdo.
- e há hora certa para a usar? - digo antes de te mostrar a ponta da língua.
encosto o carro na berma da estrada não sem antes de ligar o pisca. ponho-te a venda tendo o cuidado de não apertar de mais. depois de dizeres que não consegues ver e que estás bem, aproximo-me um pouco mais de ti deixando os nossos lábios a escassos milímetros sentindo o calor das nossas respirações.
roçamos os lábios uma e outra vez e beijo-te, beijas-me, beijamo-nos lenta e suavemente.
- amo-te! - digo ao afastar-me e sentar-me direito em frente do volante.
- apenas um pouco - dizes sorrindo.
de um lado e do outro da estrada a paisagem já conheceu muitos melhores dias mas, infelizmente, nos últimos meses tem vindo a sofrer cada vez mais mudanças e, quanto mais o tempo avançar, mais vai ficar irreconhecível. por um lado, ao colocar a venda foi uma maneira de não veres como está a ficar. por outro lado, simplesmente porque gosto de fazer surpresas.
- chegámos.
- já? foi rápido.
- sim, poucos quilómetros e poucas curvas.
- ainda bem pois ao não ver nada podia começar a enjoar.
- mas estás bem, certo?
- sim, estou.
- vou tirar-te a venda mas manténs os olhos fechados, combinado?
- combinado.
retiro a venda e, durante uns segundos, fico a olhar para os teus lábios. para o teu nariz. simplesmente, para o teu rosto.
- quando é que posso abrir os olhos? - dizes ao aperceberes do silêncio demorado.
- já podes abrir...
- não me vou assustar?
- abre os olhos e desfruta...
lentamente abres os olhos.
- wow... é... lindo!! - dizes enquanto que os teus olhos são invadidos pela claridade do sol.
- anda, vem ver mais de perto...

- está muito vento e despenteia-me.
- ficas linda na mesma.

- aos teus olhos.
- não, ao meu coração.

sorris.
- aqui está o teu casaco. fecha-o todo.
- ok. - dizes ao vesti-lo para depois saíres do carro.
saio também e tranco o carro, vestindo o casaco e fechando-o bem.
olho na tua direcção e sorrio ao ver o teu cabelo a dançar descompassadamente ao sabor do vento.
sorris-me quando chegas ao pé de mim.
- vamos até lá abaixo - digo apontando para o lugar.
- mas lá não está mais vento e frio?
- não no sítio onde vamos estar.
- a sério?
- sim. anda lá, está quase na hora.
rapidamente como que empurrados pelo vento, chegamos às escadas que descemos com cuidado até chegarmos à areia.
- aqui não temos vento. pelo menos não tanto, apenas um pouco.
- tens razão, aqui está mais abrigado. é aqui que vens?
- sim - digo enquanto te rodo de costas para mim e te envolvo com o meu abraço - agora, vê...
ao longe, no horizonte, o sol começa a beijar o mar lenta e suavemente sentindo cada toque até que desaparece.
voltas-te para mim e, olhando-me nos olhos, dizes:
- obrigada por esta surpresa. gostei muito, não só desta mas de todas as que me fazes.
- não tens de agradecer. não precisas de o fazer pois nota-se no teu rosto.
- o teu amor por mim é algo...
- não sei de quem é a autoria mas "o que sinto por ti é mais do que alguma vez saberás".
sorris.
- lembraste-te de há muito tempo te falar de yin-yang? - pergunto enquanto nos abraçamos.
- sim, tenho uma vaga ideia. porquê?
- porque é isso que nos caracteriza. uma das definições é que "nada existe no estado puro: nem na actividade absoluta, nem na passividade absoluta, mas sim numa transformação contínua" e é isso que faz com que resulte... fazemos com que o melhor de cada um de nós prevaleça acima de tudo...
- às vezes não é fácil.
- nada é fácil nestas férias a que se chama de vida... mas havendo motivação, respeito, compreensão, diálogo, tolerância, simplesmente amor, torna-se mais fácil...
- sim, verdade.
- sabes que não dou muita relevância a como as pessoas são exteriormente pois o que realmente vejo é o que as pessoas são por dentro, a sua essência... e a tua, meu amor, é única!! por mais anos que passem por ti e que deixem as suas marcas, ver-te-ei sempre como no primeiro dia em que realmente te vi.
abraças-me com mais força.
- no entanto, há algo que muitas vezes não me deixa adormecer à noite.
- queres falar sobre isso?
- um dia falaremos. sabes do que sinto mais falta em ti?
- o quê?
- de um abraço daqueles que nos faz esquecer de todos e tudo o que nos rodeia. que me tranquiliza com uma paz avassaladora. que me faz sentir protegido e proteger. que me faz perder a noção do tempo e do espaço. sinto mesmo falta dele.
- destes? - dizes antes de me dares o teu abraço...