
dois minutos antes da hora marcada chego ao local combinado. é uma velha estação de comboios que resiste aos tempos modernos e que, contra as adversidades dos mesmos, ainda se mantém aberta apesar de não ter qualquer funcionário a trabalhar nela. os comboios chegam, param por breves minutos e depois seguem o seu destino. raramente entra ou sai quem quer que seja nestes mas é assim a escala e o horários deles.
ao ombro trago uma mochila que pouso entre os pés antes de me sentar no banco que se encontra encostado à estação mesmo defronte para as duas linhas paralelas. do outro lado, do lado de lá das linhas, velhas árvores inclinadas pelos anos estão repletas de flores primaveris que se encontram no seu auge perfumando o ar envolvente à estação por causa de uma breve brisa que se faz sentir. junto às árvores também estão alguns roseirais bravos que foram nascendo por via de outrora terem havido canteiros de flores diversas. tempos em que a estação era um ponto de encontro de chegadas e partidas, beijos e abraços, lágrimas e sorrisos, felicidade e tristeza. outros tempos, outras vidas.
ao ver as rosas sorrio e fecho os olhos. lembro, querendo e desejando ver a tua expressão, do dia que recebeste a primeira rosa que pedi que te entregassem. como gostava de ter visto, escondido em silêncio, simplesmente para te ver no meio da tua timidez ao segurar nela e caminhares pela rua, sentindo o olhar das pessoas a desejarem também ter recebido uma igual.
absorto do mundo e envolto nos meus pensamentos não me apercebo que também já chegaste, só me apercebendo quando, depois de te sentares a meu lado, me tocas com a mão na perna trazendo-me de volta ao mundo.
sorrio. sorris.
no chão, também junto aos teus pés, tens a tua mochila.
"- está tudo aí?" - pergunto-te fazendo o gesto com a cabeça indicando a mochila.
"- sim, está." - respondes enquanto seguras a mochila e a colocas no teu colo.
"- posso espreitar?"
"- sim, podes"- dizes enquanto abres o fecho.
assim que o fecho da mochila está completamente aberto, espreito para dentro dela. um misto de alegria e tristeza invade-me fazendo com que o meu olhar encontre o teu. aproximo os meus lábios da tua testa e beijo-a demoradamente.
ao afastar-me vejo um pequeno sorriso triste em ti.
"- nada disso. nada de te sentires triste." - digo-te enquanto passo uma mão pelas tuas costas prendendo-a no ombro e puxando-te para junto de mim.
sorris. desta vez menos triste.
volto a olhar para dentro da mochila e encontro-te lá. as alegrias e as tristezas, as dúvidas e as certezas, as lágrimas e os sorrisos, a insegurança e a confiança, a solidão e os sonhos, a auto-estima e o amor entre tantos outros.
"- conheço muito do que aqui tens."
"- pois conheces. conheces muito de mim." - respondes piscando-me um olho.
"- há algumas coisas que não pertencem aqui. sabes isso, não sabes?"
"- sei. mas sozinha não consigo tirá-las."
"- não estás sozinha."
"- sei que estás aqui mas... até quando estarás?" - perguntas olhando-me nos olhos.
"- até ao dia que não houver pôr-do-sol." - respondo-te deixando os meus olhos fixos nos teus.
sorris.
"- posso ver a tua mochila?" - perguntas.
"- sim, claro que podes." - segurando-a e abrindo-lhe o fecho.
"- tal como me disseste que era." - dizes enquanto olhas para dentro dela.
nela vês tanto em comum com o que tens na tua mochila. no entanto, ao veres um espaço vazio ficas com um ar intrigado.
"- que espaço vazio é este?"
"- este espaço esteve sempre assim enquanto ia enchendo o resto da mochila." - respondo com o olhar preso num ponto algures no vácuo da visão.
"- sou eu quem ali está"- dizes ao fixares o olhar num canto do espaço da mochila.
"- sim, és tu. e esse espaço é apenas e só teu e será sempre só para ti." - digo já com o olhar preso no teu.
sorris e colocas a mochila no chão perto da tua. levantas-te para, logo de seguida, te sentares no meu colo de frente para mim.
diante de mim tenho duas personagens da disney estampadas na tua camisola. sorrio ao vê-las. sorris ao ver-me sorrir.
os teus braços procuram o meu corpo e abraças-te a ele ao mesmo tempo que os meus braços te abraçam e te junto a mim.
paz.
tranquilidade.
protecção.
tanto e tanto mais num simples gesto que nos faz esquecer de tudo e todos. que nos faz parar no tempo e que o tempo não importa. o tempo não tem tempo de se intrometer entre nós.
e o teu cheiro que se entranha em mim sem pedir licença pois sabe que não precisa de o fazer, que o deve fazer.
afastas-te um pouco e olhas-me nos olhos encontrando-te neles. olho-te nos olhos e encontro-me neles.
lentamente os meus lábios procuram os teus que, ao sentirem-se procurados, procuram os meus. e tocam-se. roçam-se uma e outra vez em pequenos movimentos lentos. sentidos. arrepiados.
suavemente perdem a timidez e envolvem-se suavemente procurando cada milímetro de cada um deles. tocando. sentindo. misturando. gostando.
o que era outrora apenas um roçar de lábios é agora uma envolvência de sabores. de gostos gostados por pessoas que se gostam. se adoram. se amam. um beijo que faz o imaterial das almas se tocarem. se unirem. se fundirem.
ao longe ouve-se um apito. o comboio está a chegar.
paramos o beijo e sorrimos.
levanto-me do banco trazendo-te agarrada a mim. de braços à volta do pescoço e pernas à volta da cintura.
beijas-me suavemente e retribuo lentamente.
deixas-te escorregar até os teus pés tocarem no chão.
o comboio está quase a parar.
tiro os bilhetes do bolso e ficamos a olhar para eles por instantes, mais precisamente para o local do destino.
"- preparada para apanhar o comboio?" - pergunto depois de te beijar a testa.
"- sim, estou." - respondes sorrindo.
seguro as mochilas com a mão esquerda. seguras as mochilas com a mão direita. as mochilas seguem assim connosco, entre nós. partilhadas. conhecidas. respeitadas. as nossas mochilas.