Vieira de Leiria, 14 de fevereiro de 2021 - 00h30
nota: antes de leres este texto, aconselho a ler as nossas mochilas pois é, em parte, a continuação...
paro...
a noite está escura e húmida tal como sempre nesta altura do ano...
estou, mais ou menos, no meio da ponte que une as duas margens... não há mais ninguém por perto nem trânsito pois, a esta hora, não se pode circular nas estradas... mas eu arrisquei e vim até aqui deixando o carro numa das margens e fazendo o resto do percurso a pé...
viro-me para o lado da foz e, com as mãos no vão, fecho os olhos e, deixando o vento passar por mim despenteando-me o que resta do cabelo, sorrio enquanto penso que apenas perdi o medo de atravessar pontes quando tinha dezassete anos... e logo no tabuleiro inferior da ponte Ponte Luíz I...
há quem não goste da sensação mas ainda bem pois não podemos nem devemos gostar todos das mesmas coisas... e eu adoro a sensação de liberdade que me faz sentir...
abro os olhos e, olhando para o chão, fixo o olhar na mochila que havia colocado no chão momentos antes... a mochila que me acompanha desde sempre e que estará sempre comigo...
inspiro fundo e coloco a mão direita no bolso do casaco tirando dele dois pequenos papéis, um dos quais com um pequeno furo... fecho a mão com os papéis nela no mesmo instante que fecho os olhos e deixo que a lembrança gravada em mim me invada...
"o comboio havia já chegado e parado mas, por algum motivo, as portas não abriram... duas carruagens atrás de onde estamos chega-nos uma voz a dizer que apenas se pode entrar na última carruagem, mesmo no fim da mesma...
a voz era a do revisor que, ao ver-nos, pôs a cabeça de fora da carruagem através de uma pequena janela e nos informou...
sorrimos e, com as nossas mochilas seguras por ambos, caminhámos em direcção à última carruagem...
enquanto caminhamos apercebo-me, pelo canto do olho, que estás um pouco tensa mas compreendo que esteja associado ao passo que estamos prestes a dar...
pouco antes de chegarmos à carruagem ouço o teu telemóvel a tocar e paramos para o tirares da carteira... vês quem é e baixas o olhar... em seguida, olhas-me nos olhos e dizes que tens de atender pois pode ser importante...
"- está bem. espero por ti ali mais à frente" digo fazendo o gesto com a cabeça indicando o local...
"- não, podes ir entrando" dizes enquanto soltas da mão a minha mochila... olho para ela e solto a minha da tua...
"estou?" ouço-te dizer enquanto atendes o telemóvel e te afastas um pouco... por breves instantes fico a observar-te para depois entrar na carruagem... escolho um banco duplo com outro virado para trás e ponho a minha mochila nele, mesmo à minha frente e sento-me...
olho pela janela e vejo-te um pouco mais afastada do comboio do que quando te deixei a atender a chamada...
sorrio e vejo-o reflectido na janela da carruagem... um simples e quase imperceptível sorriso...
fecho os olhos e revivo o suave toque dos teus lábios nos meus no nosso primeiro beijo... até que ouço bater na janela fazendo-me abrir os olhos...
estás do lado de fora e o teu olhar está fixo no meu... ouço a porta da carruagem fechar e sinto um pequeno solavanco na mesma começando a mover-se lentamente...
pões a tua mão esquerda aberta na janela nunca desviando o teu olhar do meu... ponho a minha mão direita alinhada com a tua na janela como se estivessem a tocar... "desculpa" consigo ler nos teus lábios para depois continuares "tenho medo de voar"...
"- eu sei que tens e nada mais posso fazer além do que já fiz" digo-te...
o comboio começa a ganhar mais movimento e tiras a mão da janela mas não deixando de o acompanhar... sorrio e tiro também a minha mão da janela...
"- não desistas de ti..." digo enquanto aponto para o peito com o dedo indicador...
paras e deixas que o comboio se afaste... ajeito-me no banco e fecho os olhos..."
sinto o vento passar por mim... sorrio e abro os olhos... na mão tenho os bilhetes do comboio e, entre rajadas de vento, deixo que ele os leve...
o meu cabelo, o que sobra dele, é despenteado descompassadamente ao ritmo do vento e é dessa forma que, depois de me baixar e pegar na mochila, me ergo e a ponho ao ombro... nela está o meu caminho, a minha vivência, as minhas memórias, as minhas pessoas, os meus sentimentos... nela está tudo o que sou e atravessei na vida... as pontes da vida...
durante a vida passamos por tantas situações, por tantas "merdas" que nos fazem sentir deslocados, tristes, sós, quietos no nosso canto, sossegados na nossa zona de conforto... e deixamos a vida passar por nós como se fosse possível amanhã nos sentirmos melhor, de resolver, de voltar a (sor)rir... mas esse dia teima muito em não aparecer... e, quando aparece, não lhe damos o devido valor e nos agarramos a ele para nos (re)erguer!! esse dia pode trazer um simples momento que nos preencha a essência com o que necessitamos... seja um encontro, uma festa, um simples café, uma pessoa...
e há pessoas que, simplesmente, entram nas nossas vidas e a fazem ter sentido... pessoas de e com luz própria que nos iluminam e fazem (re)acender a nossa própria luz que havia sido diminuída com o passar do tempo... pessoas que nos surpreendem por serem genuínas e que nos fazem acreditar em nós próprios e que nos fazem crescer como seres humanos... que, ao nos fazerem bem, se sentem bem e crescem também...
a vida é assim mesmo e, por mais que doa, por mais que assuste, por mais medo que se tenha em voltar a confiar, a abrir o peito e entregar o coração, o tempo não pára... a vida é uma metamorfose... não se pode ser uma lagarta a vida toda com medo de se transformar numa borboleta...
há quem nos segure a mão e caminhe connosco lado a lado... é assim que também se atravessam as pontes da vida...