
pouso o bloco de papel e a caneta na secretária e puxo a cadeira sentando-me nela em seguida... na secretária, além do bloco de papel e da caneta, tenho também uma caneca de chá quente para, de vez em quando, ir bebendo e suavizar a garganta...
quase oito meses depois das últimas palavras escritas, o receio que não haja uma única que saia da caneta, faz com que feche os olhos deixando-me ficar imóvel ouvindo o som do vento que embate nos estores... em pouco tempo sinto-me como se estivesse deitado na cama, embrulhado pelos cobertores e protegido de tudo e todos... aquele momento que faz com que se conte baixinho à almofada tudo o que se sente... abro os olhos e alinho o bloco de papel pegando de seguida na caneta...
depois... depois as palavras vão saindo da caneta para a folha...
"meu amor...
"o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que elas acontecem. por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis" (fernando pessoa)...
é curioso quando, nalgum momento da vida, nos surgem frases que nos dizem tanto, que parecem ter sido escritas para nós próprios mas que, como é sabido, não foram... foram sim para alguém que, quem sabe, passou por um momento algo parecido com o que passamos... e esta de fernando pessoa é uma dessas que nos acompanha durante anos e da qual sabemos uma parte e que, ao procurá-la na internet, nos surpreende (pelo menos a mim), por ser mais completa e marcante...
sabes, meu amor... os dias vão passando por nós dando lugar a semanas, meses, anos... e esse tempo não volta... passou... e nas entrelinhas das palavras que não escrevemos procuro encontrar-te... encontrar-me... encontrar-mo-nos... nos silêncios mudos e gritantes das palavras que não dizemos procuro por ti... por mim... por nós... deixando-nos pensar na vida...
e qual é o sentido da vida sem amor?
sinceramente não faz sentido... podemos passar meses e mesmo anos à procura do amor mas "no final de contas não vais encontrar quem sempre procuraste mas sim encontrar quem por ti sempre esperou" (desconhecido)...
tal como escreveu william somerset maugham em que diz que "não somos a mesma pessoa de um ano para outro, nem o são as pessoas que amamos. é uma oportunidade feliz se ao mudarmos, continuarmos a amar a pessoa mudada", fernando pessoa complementa com "o amor não se conjuga no passado. ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente"...
por isso, um dia quando me ouvires dizer que te amo, não será em vão que o direi... será porque o acumular de situações e sentimentos me levou a senti-lo nesse momento e que o sentirei todos os dias que se seguirão... e amar-te-ei nesse dia, no dia seguinte e sempre, meu amor...
ama, permite ser amada... assim, sem medos... esses têm tempo de aparecer se assim lhes for permitido... e caberá a ambos que não apareçam havendo uma base de confiança, respeito, diálogo, empenho em manter afastado o que possa querer prejudicar esse amor pois "o amor não sente fardos, não se importa de se incomodar, tenta coisas acima da sua força, não se desculpa com a impossibilidade porque pensa que tudo é justo e que tudo é possível" (thomas kemp)...
meu amor... tenho comigo as pessoas que escolhi de entre a família e também tenho a família que a vida escolheu para mim e não faço distinção entre ambas pois complementam-se e preenchem-me... e estas pessoas a quem chamo de minhas fez com que um dos meus sonhos se permutasse fazendo com que tenha três sobrinhos que, em parte, também considero como filhos pois um tio é, em parte, um pai pois também se preocupa, também ensina, também brinca, também educa... e todos são uma parte do brilho dos meus olhos... que me fazem ter orgulho quando alcançam algo pelo que lutaram, que me deixam triste por algo que não deviam ter feito, que me fazem sorrir por acompanhar o seu crescimento... por serem uma parte de mim... os quais posso dizer que fazem parte inicial de um outro sonho que, quem sabe dentro de alguns anos, se realizará...
espero por ti, meu amor... e quando vieres, vem com a certeza de que encontrarás alguém que te amará, cuidará e respeitará todos os dias... quem sabe, um amor com que sempre sonhaste viver...
beijo suave e (de)morado na testa... beijo doce e (e)terno no coração..."
pouso a caneta na secretária e releio, palavra a palavra, todas as frases escritas... a adrenalina que me percorria enquanto as palavras eram escritas em catadupa começa a desaparecer dando o lugar a uma tristeza que me faz ficar em silêncio a pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo...
digitalizo a folha e imprimo um sem número de cópias que, mais tarde, durante as horas calmas e tranquilas da noite, espalharei pelo mundo na esperança que uma delas te prenda o olhar pois, provavelmente, esta carta é a última... a última carta que te escrevo...