
"- bom dia. venho buscar o meu bilhete." digo quando chego ao balcão da bilheteira depois de ver a placa que se encontra fixada por cima com a palavra "RESERVAS"."- um momento, já o atendo." diz uma voz vinda do interior da divisão mas que não consigo ver de quem é.
olho em redor e vejo o quão bonita é a estação de comboios em que me encontro. simples e prática com uma única linha de saída de comboios na qual se encontra um apenas com a locomotiva e uma única carruagem.
"- tem a sua reserva consigo?" diz a mesma voz fazendo com que me vire em direcção do balcão.
"- sim, aqui está. a saída é para daqui a..." interrompo-me ao ver a figura diante de mim para, poucos segundos depois finalizar "... duas semanas.".
estendo a mão e entrego a reserva por cima do balcão.
do outro lado está uma figura imponente que observa a reserva e me prende o olhar.
"- tem umas asas magníficas." digo não tirando o olhar das mesmas. e são. bem estruturadas e muito bem cuidadas.
"- obrigado. ganhei-as quando regressei da minha missão há alguns anos." diz-me sorrindo, olhando para uma, depois para outra e parando o olhar na minha reserva até que diz "a viagem para esta reserva foi antecipada... para hoje."
"- para hoje?!" digo espantado. "não trouxe mala e ainda não estou preparado!"
"- não precisa de qualquer mala e nunca se está preparado." diz-me num tom de voz apaziguador.
"- mas... não sei ainda qual é a minha missão." digo confuso com a situação.
"- a sua missão é encontrar..." começa por me dizer quando, de repente, a locomotiva que está na linha se põe a trabalhar e apita com um som estridente só me deixando ouvir "... e sorrir. mas agora tem de ir que o seu comboio está para sair" quando o apito deixa de se fazer ouvir.
"- mas... sair já? mas não ouvi tudo sobre a minha missão, pode repetir?" digo algo aflito com a situação.
"- não se preocupe, um dia vai saber qual é e vai conseguir cumpri-la bem. sorria!! não me vai conseguir ver mas eu vou estar sempre por perto. agora tem de ir, rápido!" disse apontando para o comboio.
"- obrigado." digo antes de dar uma pequena corrida e entrar na carruagem.
ao entrar na carruagem vejo que esta é enorme e vazia, apenas havendo um lugar na extremidade oposta à locomotiva. caminho em direcção ao lugar olhando em redor e acho estranho pois, visto de fora, a carruagem não era assim tão grande.
assim que me sento, sinto a carruagem mexer e apercebo-me que a viagem começou.
poucos instantes depois vejo algo na outra extremidade da carruagem.
"- mas isto é..." a voz falha-me quando, sou invadido por uma luz branca durante um instante que depois desaparece.
diante de mim estão várias pessoas e crianças mas apenas reconheço algumas e sinto que me vão acompanhar durante muito tempo.
sorriem-me e devolvo o sorriso, deixando-os ainda mais sorridentes e contentes.
por cima da porta, que julgava dar para a locomotiva, está um relógio mas diferente do normal. ao contrário do normal dos dígitos das horas, minutos e segundos, este tem os dias, meses e anos.
à medida que o tempo vai passando, vão entrando mais pessoas e crianças pela porta. pessoas que surgem e, algumas pouco tempo depois, se vão embora. crianças que vejo a brincar e a crescer e fazem com que olhe para mim e me veja também a mudar.
o relógio marca agora quase seis anos e meio e, pela porta, surgem mais crianças que vêm sentar-se no chão junto a mim e começam a ler e escrever, brincando de vez em quando. e mais pessoas que entram e ficam. outras que saem.
até que, aos dez anos, algumas crianças se levantam e saem para entrarem muitas outras. assim como pessoas.
e continua assim até que o comboio chega a uma bifurcação e tenho de escolher qual o lado. escolho um. não sei se é o mais certo, só o tempo o dirá. e saem quase todas as crianças que o deixaram de ser para se transformarem em jovens para entrarem outros. e mais pessoas.
olho para mim e em nada pareço como era no início da viagem.
alguns anos depois um forte safanão faz com que quase todos os jovens e pessoas saiam da carruagem. quase vazia, ficam comigo as pessoas e algumas outrora crianças que me acompanham desde o início e uma ou outra mais recente.
junto ao relógio surge a mensagem "linha estragada. em reparação" para, instantes depois surgir "marcha lenta"
olho em redor e as pessoas que não saíram da carruagem continuam comigo. sorrio-lhes e devolvem-me o sorriso.
pouco depois, aos poucos, começam a entrar pessoas mas de forma lenta e não se aproximam pois o safanão que a carruagem teve fez com que o percurso até mim ficasse cheio de destroços que surgiram do nada e fosse quase intransponível. mesmo assim pouquíssimas conseguem fazê-lo e mantêm-se por perto.
e essas pessoas, as que se vão mantendo por perto, vão acrescentando mais elementos. crianças. crianças que, mesmo não sendo, se tornam parte de mim.
até que, passados muitos anos, entra uma pessoa entre outras e se mantém afastada até ao dia em que nos olhamos e nos vemos... pela primeira vez desde que me sentei, levanto-me e afasto os destroços para que possa chegar perto de mim. volto a pôr os mesmos no sítio onde estavam e, dando as mãos, caminhamos para o lugar onde estava sentado.
diante de mim está uma pessoa com bastantes destroços que foi acumulando e que não sabe como afastá-los para que fique bem.
maria. sim, o seu nome é maria e quando nada se previa entrou na minha vida. e desde que na minha carruagem entrara queria que jamais a deixasse.
para mim, maria é uma mulher linda, daquelas que nunca iriam reparar em mim simplesmente por não ser uma pessoa que desperte a atenção. mas tal não era verdade. maria reparara como nunca antes alguém o havia feito.
enquanto decorria a viagem, falamos sobre tudo com um à vontade enorme que parece que nos conhecemos desde o início da viagem. e assim nos tornamos no apoio, o peito para o desabafo do outro a qualquer hora do dia.
no entanto, maria tem uma pessoa na sua vida há alguns anos mas que, nos últimos meses vive uma situação delicada que a priva de ser feliz como merece ser, que a desgasta cada vez mais a cada dia que passa.
durante meses apoio maria como consigo, como sei e sem nada pedir em troca até que um dia ganha coragem para resolver a sua situação. mas os destroços de maria aprofundam mais e entranham-se na carne. mas continuo ao seu lado tentando, de algum modo, aliviar a sua pressão e trazer-lhe o sorriso de volta. por vezes consigo, por vezes não. mas não desisto de o voltar a ver como no dia que nos olhámos nos olhos. simplesmente porque a amo.
tal como escreveu fernando pessoa "o amor não se conjuga no passado. ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente", esse amor estará no meu coração para sempre. sendo o anjo de maria.
tal como a maria, existem milhares e milhares de mulheres e homens (sim, também os há!!) por esse mundo fora que vivem situações idênticas e bem piores durante meses, anos e até mesmo décadas... situações de violência psicológica e/ou física, mutilações, escravidão... pessoas com medo e/ou sem oportunidades de dizerem o que estão a sentir, a viver...
por vezes é tão simples detectar o que pode estar a acontecer com alguém que nos é tão próximo...
olha para as pessoas um pouco e tenta percebê-las... quem sabe se as estarás a ajudar... e se o estiveres a fazer e consigas que essas pessoas fiquem bem, vais ver que vale a pena!!
muitas dessas mulheres e homens voltam a encontrar o amor e vivem-no intensamente deixando o passado guardado e fechado numa gaveta. sabem que está lá, mas preferem não lhe dar importância.
no entanto há quem também encontre um novo amor mas que não o vivem e refugiam-se em si próprios com receio de um dia esse amor terminar e voltar a sofrer... mas nenhum amor é igual quando não são as mesmas pessoas envolvidas... quando são pessoas que, sabendo o que aconteceu continuam por perto apoiando e amando, simplesmente são pessoas que respeitam o passado e o querem guardar na gaveta e fechá-la tal como as pessoas que seguiram em frente e voltar a pôr um brilho nos olhos e um sorriso no rosto nas pessoas que sofreram...
ninguém nasce por acaso, ninguém passa pelo mundo por acaso. cada um é escolhido com um propósito. uma missão.
há quem descubra enquanto criança. ou em adulto. até mesmo já idoso. e há até quem não saiba que o cumpriu.
a vida é um comboio que, por mais ou menos vezes, pára ou abranda para que pessoas, animais, situações entrem e permaneçam ou saiam na estação seguinte ou noutra mais à frente.
e há pessoas que são assim, anjos da guarda que ainda não ganharam asas e que andam por entre todos nós neste mundo em que, cada vez mais, se olha apenas e só para o seu próprio umbigo.
estes anjos da guarda sem asas apenas usam o amor para guardar, proteger, amparar quem precisa de ajuda e precisam apenas de ser amados pois é parte fundamental da sua missão. amar e ser amado!!