segunda-feira, 25 de novembro de 2019

o anjo de maria

Vieira de Leiria, 25 de novembro de 2019 - 00h01



25 de novembro - Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher

"- bom dia. venho buscar o meu bilhete." digo quando chego ao balcão da bilheteira depois de ver a placa que se encontra fixada por cima com a palavra "RESERVAS"."- um momento, já o atendo." diz uma voz vinda do interior da divisão mas que não consigo ver de quem é.
olho em redor e vejo o quão bonita é a estação de comboios em que me encontro. simples e prática com uma única linha de saída de comboios na qual se encontra um apenas com a locomotiva e uma única carruagem.
"- tem a sua reserva consigo?" diz a mesma voz fazendo com que me vire em direcção do balcão.
"- sim, aqui está. a saída é para daqui a..." interrompo-me ao ver a figura diante de mim para, poucos segundos depois finalizar "... duas semanas.".
estendo a mão e entrego a reserva por cima do balcão.
do outro lado está uma figura imponente que observa a reserva e me prende o olhar.
"- tem umas asas magníficas." digo não tirando o olhar das mesmas. e são. bem estruturadas e muito bem cuidadas.
"- obrigado. ganhei-as quando regressei da minha missão há alguns anos." diz-me sorrindo, olhando para uma, depois para outra e parando o olhar na minha reserva até que diz "a viagem para esta reserva foi antecipada... para hoje."
"- para hoje?!" digo espantado. "não trouxe mala e ainda não estou preparado!"
"- não precisa de qualquer mala e nunca se está preparado." diz-me num tom de voz apaziguador.
"- mas... não sei ainda qual é a minha missão." digo confuso com a situação.
"- a sua missão é encontrar..." começa por me dizer quando, de repente, a locomotiva que está na linha se põe a trabalhar e apita com um som estridente só me deixando ouvir "... e sorrir. mas agora tem de ir que o seu comboio está para sair" quando o apito deixa de se fazer ouvir.
"- mas... sair já? mas não ouvi tudo sobre a minha missão, pode repetir?" digo algo aflito com a situação.
"- não se preocupe, um dia vai saber qual é e vai conseguir cumpri-la bem. sorria!! não me vai conseguir ver mas eu vou estar sempre por perto. agora tem de ir, rápido!" disse apontando para o comboio.
"- obrigado." digo antes de dar uma pequena corrida e entrar na carruagem.
ao entrar na carruagem vejo que esta é enorme e vazia, apenas havendo um lugar na extremidade oposta à locomotiva. caminho em direcção ao lugar olhando em redor e acho estranho pois, visto de fora, a carruagem não era assim tão grande.
assim que me sento, sinto a carruagem mexer e apercebo-me que a viagem começou.
poucos instantes depois vejo algo na outra extremidade da carruagem.
"- mas isto é..." a voz falha-me quando, sou invadido por uma luz branca durante um instante que depois desaparece.
diante de mim estão várias pessoas e crianças mas apenas reconheço algumas e sinto que me vão acompanhar durante muito tempo.
sorriem-me e devolvo o sorriso, deixando-os ainda mais sorridentes e contentes.
por cima da porta, que julgava dar para a locomotiva, está um relógio mas diferente do normal. ao contrário do normal dos dígitos das horas, minutos e segundos, este tem os dias, meses e anos.
à medida que o tempo vai passando, vão entrando mais pessoas e crianças pela porta. pessoas que surgem e, algumas pouco tempo depois, se vão embora. crianças que vejo a brincar e a crescer e fazem com que olhe para mim e me veja também a mudar.
o relógio marca agora quase seis anos e meio e, pela porta, surgem mais crianças que vêm sentar-se no chão junto a mim e começam a ler e escrever, brincando de vez em quando. e mais pessoas que entram e ficam. outras que saem.
até que, aos dez anos, algumas crianças se levantam e saem para entrarem muitas outras. assim como pessoas.
e continua assim até que o comboio chega a uma bifurcação e tenho de escolher qual o lado. escolho um. não sei se é o mais certo, só o tempo o dirá. e saem quase todas as crianças que o deixaram de ser para se transformarem em jovens para entrarem outros. e mais pessoas.
olho para mim e em nada pareço como era no início da viagem.
alguns anos depois um forte safanão faz com que quase todos os jovens e pessoas saiam da carruagem. quase vazia, ficam comigo as pessoas e algumas outrora crianças que me acompanham desde o início e uma ou outra mais recente.
junto ao relógio surge a mensagem "linha estragada. em reparação" para, instantes depois surgir "marcha lenta"
olho em redor e as pessoas que não saíram da carruagem continuam comigo. sorrio-lhes e devolvem-me o sorriso.
pouco depois, aos poucos, começam a entrar pessoas mas de forma lenta e não se aproximam pois o safanão que a carruagem teve fez com que o percurso até mim ficasse cheio de destroços que surgiram do nada e fosse quase intransponível. mesmo assim pouquíssimas conseguem fazê-lo e mantêm-se por perto.
e essas pessoas, as que se vão mantendo por perto, vão acrescentando mais elementos. crianças. crianças que, mesmo não sendo, se tornam parte de mim.
até que, passados muitos anos, entra uma pessoa entre outras e se mantém afastada até ao dia em que nos olhamos e nos vemos... pela primeira vez desde que me sentei, levanto-me e afasto os destroços para que possa chegar perto de mim. volto a pôr os mesmos no sítio onde estavam e, dando as mãos, caminhamos para o lugar onde estava sentado.
diante de mim está uma pessoa com bastantes destroços que foi acumulando e que não sabe como afastá-los para que fique bem.
maria. sim, o seu nome é maria e quando nada se previa entrou na minha vida. e desde que na minha carruagem entrara queria que jamais a deixasse.
para mim, maria é uma mulher linda, daquelas que nunca iriam reparar em mim simplesmente por não ser uma pessoa que desperte a atenção. mas tal não era verdade. maria reparara como nunca antes alguém o havia feito.
enquanto decorria a viagem, falamos sobre tudo com um à vontade enorme que parece que nos conhecemos desde o início da viagem. e assim nos tornamos no apoio, o peito para o desabafo do outro a qualquer hora do dia.
no entanto, maria tem uma pessoa na sua vida há alguns anos mas que, nos últimos meses vive uma situação delicada que a priva de ser feliz como merece ser, que a desgasta cada vez mais a cada dia que passa. 
durante meses apoio maria como consigo, como sei e sem nada pedir em troca até que um dia ganha coragem para resolver a sua situação. mas os destroços de maria aprofundam mais e entranham-se na carne. mas continuo ao seu lado tentando, de algum modo, aliviar a sua pressão e trazer-lhe o sorriso de volta. por vezes consigo, por vezes não. mas não desisto de o voltar a ver como no dia que nos olhámos nos olhos. simplesmente porque a amo.
tal como escreveu fernando pessoa "o amor não se conjuga no passado. ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente", esse amor estará no meu coração para sempre. sendo o anjo de maria.


tal como a maria, existem milhares e milhares de mulheres e homens (sim, também os há!!) por esse mundo fora que vivem situações idênticas e bem piores durante meses, anos e até mesmo décadas... situações de violência psicológica e/ou física, mutilações, escravidão... pessoas com medo e/ou sem oportunidades de dizerem o que estão a sentir, a viver...
por vezes é tão simples detectar o que pode estar a acontecer com alguém que nos é tão próximo...
olha para as pessoas um pouco e tenta percebê-las... quem sabe se as estarás a ajudar... e se o estiveres a fazer e consigas que essas pessoas fiquem bem, vais ver que vale a pena!!
muitas dessas mulheres e homens voltam a encontrar o amor e vivem-no intensamente deixando o passado guardado e fechado numa gaveta. sabem que está lá, mas preferem não lhe dar importância.
no entanto há quem também encontre um novo amor mas que não o vivem e refugiam-se em si próprios com receio de um dia esse amor terminar e voltar a sofrer... mas nenhum amor é igual quando não são as mesmas pessoas envolvidas... quando são pessoas que, sabendo o que aconteceu continuam por perto apoiando e amando, simplesmente são pessoas que respeitam o passado e o querem guardar na gaveta e fechá-la tal como as pessoas que seguiram em frente e voltar a pôr um brilho nos olhos e um sorriso no rosto nas pessoas que sofreram...
ninguém nasce por acaso, ninguém passa pelo mundo por acaso. cada um é escolhido com um propósito. uma missão.
há quem descubra enquanto criança. ou em adulto. até mesmo já idoso. e há até quem não saiba que o cumpriu.
a vida é um comboio que, por mais ou menos vezes, pára ou abranda para que pessoas, animais, situações entrem e permaneçam ou saiam na estação seguinte ou noutra mais à frente.
e há pessoas que são assim, anjos da guarda que ainda não ganharam asas e que andam por entre todos nós neste mundo em que, cada vez mais, se olha apenas e só para o seu próprio umbigo.
estes anjos da guarda sem asas apenas usam o amor para guardar, proteger, amparar quem precisa de ajuda e precisam apenas de ser amados pois é parte fundamental da sua missão. amar e ser amado!!

sábado, 13 de abril de 2019

um dia, quando me for embora...

Vieira de Leiria, 13 de abril de 2019 - 23h15



um dia, quando me for embora, vou querer deixar para trás todas as memórias que não foram boas e levar todas as que me fizeram (so)rir, que me fizeram feliz... vou querer todas comigo e juntar a todas as outras que fui juntando em todas as vidas que vivi...

um dia, quando me for embora, vou querer fazê-lo com um sorriso nos lábios assim que fechar os meus olhos pela última vez para que não vejas o brilho deles poder, finalmente, abraçar e entranhar-se na minha alma que é o lugar onde pertence...

um dia, quando me for embora, vou querer ficar com uma pequena parte de mim, da minha vida, de alguma palavra, junto daqueles que um dia toquei sem ter tocado sabendo também que vou levar um pouco daqueles que me abraçaram sem um abraço...

um dia, quando me for embora, vou querer que te recordes de alguma história que tenhamos vivido e que sorrias quando me vires pela última vez pois vou segurar nesse sorriso e juntá-lo a todos os outros que fiz e vi em ti durante a nossa história...

um dia, quando me for embora, vou querer deixar a maior tranquilidade por onde passei, vivi, trabalhei... por onde (sor)ri, chorei, acalmei, barafustei... onde recebi conselhos, onde os partilhei, onde os adaptei, onde tos dei... onde te conheci... onde amei...

um dia, quando me for embora, vou querer partir com a consciência tranquila de que não tenha ficado alguma palavra por dizer, de algum abraço por aconchegar, um carinho para fazer sentir melhor, um beijo de fazer parar o mundo, um sorriso nos lábios...

um dia, quando me for embora, vou querer que saibas que valeu a pena ter-te conhecido... e que cada instante que tivemos, por muito idênticos que tenham parecido ser, foi único... e, se fosse possível voltar atrás, teria feito tudo igual pois estava escrito assim...

um dia, quando me for embora, vou querer voltar... e voltar a percorrer todos os sítios e lugares que já percorri e muitos outros que ainda não conheci... e voltar a conhecer-te como se fosse a primeira vez, para te levar comigo... um dia, quando me for embora...



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

a última carta que te escrevo

Vieira de Leiria, 14 de fevereiro de 2019 - 22h06

 

pouso o bloco de papel e a caneta na secretária e puxo a cadeira sentando-me nela em seguida... na secretária, além do bloco de papel e da caneta, tenho também uma caneca de chá quente para, de vez em quando, ir bebendo e suavizar a garganta...
quase oito meses depois das últimas palavras escritas, o receio que não haja uma única que saia da caneta, faz com que feche os olhos deixando-me ficar imóvel ouvindo o som do vento que embate nos estores... em pouco tempo sinto-me como se estivesse deitado na cama, embrulhado pelos cobertores e protegido de tudo e todos... aquele momento que faz com que se conte baixinho à almofada tudo o que se sente... abro os olhos e alinho o bloco de papel pegando de seguida na caneta...
depois... depois as palavras vão saindo da caneta para a folha...

"meu amor...

"o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que elas acontecem. por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis" (fernando pessoa)...
é curioso quando, nalgum momento da vida, nos surgem frases que nos dizem tanto, que parecem ter sido escritas para nós próprios mas que, como é sabido, não foram... foram sim para alguém que, quem sabe, passou por um momento algo parecido com o que passamos... e esta de fernando pessoa é uma dessas que nos acompanha durante anos e da qual sabemos uma parte e que, ao procurá-la na internet, nos surpreende (pelo menos a mim), por ser mais completa e marcante...
sabes, meu amor... os dias vão passando por nós dando lugar a semanas, meses, anos... e esse tempo não volta... passou... e nas entrelinhas das palavras que não escrevemos procuro encontrar-te... encontrar-me... encontrar-mo-nos... nos silêncios mudos e gritantes das palavras que não dizemos procuro por ti... por mim... por nós... deixando-nos pensar na vida...
e qual é o sentido da vida sem amor?
sinceramente não faz sentido... podemos passar meses e mesmo anos à procura do amor mas "no final de contas não vais encontrar quem sempre procuraste mas sim encontrar quem por ti sempre esperou" (desconhecido)...
tal como escreveu william somerset maugham em que diz que "não somos a mesma pessoa de um ano para outro, nem o são as pessoas que amamos. é uma oportunidade feliz se ao mudarmos, continuarmos a amar a pessoa mudada", fernando pessoa complementa com "o amor não se conjuga no passado. ou se ama para sempre ou nunca se amou verdadeiramente"...
por isso, um dia quando me ouvires dizer que te amo, não será em vão que o direi... será porque o acumular de situações e sentimentos me levou a senti-lo nesse momento e que o sentirei todos os dias que se seguirão... e amar-te-ei nesse dia, no dia seguinte e sempre, meu amor...
ama, permite ser amada... assim, sem medos... esses têm tempo de aparecer se assim lhes for permitido... e caberá a ambos que não apareçam havendo uma base de confiança, respeito, diálogo, empenho em manter afastado o que possa querer prejudicar esse amor pois "o amor não sente fardos, não se importa de se incomodar, tenta coisas acima da sua força, não se desculpa com a impossibilidade porque pensa que tudo é justo e que tudo é possível" (thomas kemp)...
meu amor... tenho comigo as pessoas que escolhi de entre a família e também tenho a família que a vida escolheu para mim e não faço distinção entre ambas pois complementam-se e preenchem-me... e estas pessoas a quem chamo de minhas fez com que um dos meus sonhos se permutasse fazendo com que tenha três sobrinhos que, em parte, também considero como filhos pois um tio é, em parte, um pai pois também se preocupa, também ensina, também brinca, também educa... e todos são uma parte do brilho dos meus olhos... que me fazem ter orgulho quando alcançam algo pelo que lutaram, que me deixam triste por algo que não deviam ter feito, que me fazem sorrir por acompanhar o seu crescimento... por serem uma parte de mim... os quais posso dizer que fazem parte inicial de um outro sonho que, quem sabe dentro de alguns anos, se realizará...
espero por ti, meu amor... e quando vieres, vem com a certeza de que encontrarás alguém que te amará, cuidará e respeitará todos os dias... quem sabe, um amor com que sempre sonhaste viver...

beijo suave e (de)morado na testa... beijo doce e (e)terno no coração..."


pouso a caneta na secretária e releio, palavra a palavra, todas as frases escritas... a adrenalina que me percorria enquanto as palavras eram escritas em catadupa começa a desaparecer dando o lugar a uma tristeza que me faz ficar em silêncio a pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo...
digitalizo a folha e imprimo um sem número de cópias que, mais tarde, durante as horas calmas e tranquilas da noite, espalharei pelo mundo na esperança que uma delas te prenda o olhar pois, provavelmente, esta carta é a última... a última carta que te escrevo...