quinta-feira, 20 de abril de 2023

o caderno

 Vieira de Leiria, 20 de abril de 2023 - 00h05



"as nossas dúvidas são traidoras e fazem perdermos o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar" - william shakespeare

calço as sapatilhas e, depois de passar os atacadores naqueles últimos buracos que poucas pessoas sabem para que servem, faço o laço e mais um nó por cima antes de os esconder entre as meias e as sapatilhas. puxo o fecho do casaco quase até ao pescoço e saio para a rua. olho para o relógio para ver as horas e começo a andar pela estrada fora.
por vezes cruzo-me com pessoas conhecidas que cumprimento e retribuem o cumprimento. outras que não conheço e nada digo, nada me dizem.
depois de alguns quilómetros apercebo-me, pelo canto do olho, que está alguém quase ao meu lado. continuo no meu ritmo até que estamos lado a lado. olho e sorrio.
- "já há algum tempo que não te via. está tudo bem contigo?" - pergunto sem pararmos e mantendo-nos no meu ritmo.
- "pois é, há alguns anos que não nos encontrávamos. comigo vai como estamos a fazer... andando" - sorris antes de perguntares - "e contigo como está a vida?"
retribuo o sorriso.
- "olha, tal como contigo, vai andando. mas diz-me, o que se passou para teres andado desaparecido?"
- "tens tempo para ouvires?"
- "tenho tempo para quem tem tempo para mim" - digo-te enquanto te olho nos olhos.
- "eu sei. mas o que te vou contar, se algum dia o escreveres, não digas o meu nome."
- "combinado!" - respondo estendendo a mão direita encontrando a tua e damos um aperto.
os minutos seguintes foram passados a contar o que se passou com ele nos últimos anos e como conheceu uma linda mulher. com ela viveu, durante algum tempo, um amor único, verdadeiro e algo intenso. dos momentos menos bons. de, durante anos, serem bastante próximos. do dia que teve de se afastar por não conseguir sorrir como antes sorria, simplesmente porque não estava bem consigo próprio.
- "e foram assim os últimos anos" - dizes com alguma mágoa na voz.
- "não foram fáceis. mas agora já te sentes melhor, certo?"
- "em parte sim mas um dia, quem sabe, o tempo cura." - dizes com o olhar preso em algo distante.
- "claro que sim. o que realmente importa é que fiques bem. e vais ficar!!" - digo enquanto te ponho uma mão no ombro e aperto ligeiramente.
- "olha, toma. guarda contigo." - dizes enquanto tiras do bolso um pequeno caderno de apontamentos e mo estendes para segurar.
- "o que tens aí escrito?" - pergunto enquanto o seguro na mão.
- "estão aí as 165 cartas escritas no final das noites e enviadas em forma de email. outras 120 cartas que, apesar de escritas, nunca foram enviadas. incontáveis textos que enviei. textos soltos que, de tempos em tempos, escrevia e deixava que o vento levasse com ele."
- "e o que queres que faça com ele?" - pergunto olhando para o caderno.
- "vai publicando. ela vai lendo." - dizes enquanto esboças um sorriso e te afastas acenando ligeiramente a mão.
abro o caderno e leio alguns dos textos soltos.

18-jul-2020
o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, não escolhe cores nem idades... não escolhe extractos sociais nem profissões... não escolhe formas nem aparências... não escolhe pesos nem roupas...
o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, nada escolhe... o amor faz com que as essências se encontrem... faz com que as almas se reencontrem e se fundam... faz com que a vida faça (mais) sentido... faz sentir com que a solidão não exista...
o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, simplesmente aparece quando menos se espera... e há que vivê-lo intensamente...

28-jun-2021
"...a vida é uma metamorfose... não se pode ser uma lagarta a vida toda com medo de se transformar numa borboleta..."

09-jul-2021
a vida é feita de momentos, sabores, cheiros, toques, palavras, pessoas... bons e menos bons ou assim-assim... que nos fazem falta e que não fazem ou que "nem aquecem nem arrefecem"...
a vida é feita em 2 clic's... um que nos traz e outro que nos leva... pelo meio é repleto de clic's a todo o instante que ora nos prende ora nos solta dela... e estes últimos são tão difíceis de afastar...
a vida é feita de tudo que nos rodeia mas, muitas das vezes, o que nos rodeia não é tudo... por vezes falta uma simples coisa, algo ou alguém... que nos dê clic's que prendam...

8-ago-2021
"um dia encontras alguém que, em pouco tempo, descobres que parecem conhecer-se toda uma vida... a pessoa certa no momento errado na vida de um dos dois... que muito se faz sem nada pedir em troca... que muito tempo se espera para estarem no momento certo mas nunca estão... mas...
"e se não houver alguém? e se viveres toda a tua vida e não tiveres alguém à tua procura/espera?"

15-ago-2021
3 anos após ter visto o filme "One Day"
julgamos ser donos e senhores do tempo que temos, que vivemos... mas não é nem nunca foi nem nunca assim será...
os segundos passam... os minutos passam... as horas passam... os dias transformam-se em semanas e estas em meses e em anos... e muitas vezes apenas nos apercebemos quando olhamos para trás e pouco ou nada vimos...
procuramos esquecer ou até mesmo fugir de algo que nos incomoda, que nos quer consumir e perdemos a noção do tempo...
e há ainda aquela fuga de nós próprios, de algo que, quem sabe, nos pode preencher com um sentimento que nos faz sentir completos...
e um dia, depois de nos termos feito pseudo donos e senhores de um tempo que não é nosso, vimos que o tempo que vivemos passou ao lado do tempo que realmente devíamos ter vivido...
pára... pensa... pondera nos prós e contras... arrisca... se der certo, vive!! se não der, ao menos tentaste... e um dia o tempo dar-te-á uma nova oportunidade...
sorri (e faz sorrir)... sempre!!

22-ago-2021
a vida tem histórias em que os (sor)risos escondem as lágrimas...
durante horas falaram, (sor)riram, (re)conheceram-se... caminharam, tendo o mar como banda sonora, ora afastados ora juntos dando as mãos de quando em vez... depois de jantarem continuaram a falar de si mesmos... na hora de terminar aquele dia abraçaram-se e, fitando-se nos olhos um do outro, deram timidamente o seu primeiro beijo... e, perdendo a timidez, deram o segundo e o terceiro e...
o que não sabiam era que, pouco tempo mais tarde, não iam ficar juntos pois encontraram-se em fases diferentes da vida...

11-set-2021
"quando, naquela manhã depois de ser beijada na testa e não se aperceber de um ténue sorriso algo triste no rosto dele, ela estava longe de saber que era o último momento que estariam juntos... e ainda havia tanto para ser falado, sonhado, realizado, vivido... simplesmente, amado..."

20-out-2021
"- não (me) tens escrito?
- não... por vezes as palavras, as frases, os parágrafos surgem-me no pensamento com vontade de saírem para uma folha de papel mas não o tenho feito...
- e por que não o fazes?
- posso contar-te um segredo?
- sim, claro. guardá-lo-ei como todos os outros!!
- eu sei que guardas. é por isso que confio em ti.
- eu também confio em ti, muito. e que segredo é esse?
- ninguém, até agora to dizer, sabe que cada palavra que escrevo é como se fosse um pedaço de mim que é, ao mesmo tempo, arrancado e cravado em mim... as palavras, frases, parágrafos saem do meu âmago, do meu ser, da minha essência... e, todas as letras, são sentidas não só como libertação mas como uma dor profunda... daí, ultimamente, escrever(-te) com algum tempo de intervalo...
- não sabia que te sentias assim...
- nem tu nem ninguém... daí esconder as minhas dores sorrindo para que não as vejam... daí não me levarem a sério quando falo sério...
- e ficas triste?
- não, desapontado por não ser levado a sério e não ter uma mão que me puxe..."

18-mar-2022
"e quando anoitecia sentia-se triste, sozinho, abandonado... esquecido pelo mundo... mas era apenas quando chegava ao quarto e se deitava na cama fria que se refugiava nas suas lembranças e se deixava ser abraçado e embalado pela solidão até adormecer..."

8-jun-2022
"... são-nos dados, todos os dias, 86.400 instantes para serem vividos e nem os sabemos agradecer..."

fecho o caderno e penso que a vida é feita de escolhas... certas, erradas, "construtivas", destroçadas... e todas elas são feitas numa estrada em que fazemos o nosso caminho... o melhor, o pior, o mais acertado, o mais errado, o mais bem sucedido, o maior precipício...

terça-feira, 20 de abril de 2021

43

 Vieira de Leiria, 20 de abril de 2021 - 00h30



e hoje é o meu aniversário...
é assim o curso normal da vida... aquela que nos dá e tira... aquela que aproxima e afasta... aquela que nos faz (sor)rir e chorar... aquela que nos puxa e empurra...
tantas situações e momentos que nos faz viver, sentir, aprender, corrigir... mas que não nos faz esquecer...
e é essa parte a mais dolorosa que nos acompanha... ora mais embaciada ora mais nítida... mas que faz parte de nós...
há momentos que nos presenteia com algo bom como pessoas, histórias, sentimentos... mas também que nos magoa quando nos tira...

e quando não é ela a magoar-nos, somos nós próprios que nos afastamos do que nos magoa ou quem magoamos... que ficamos quietos no nosso canto... que (sor)rimos quando estamos perto de alguém e nos afundamos na tristeza da solidão... que nos tornamos especialistas em esconder o que realmente sentimos... que vivemos de uma forma que não queremos que saibam... não por fraqueza mas porque, por mais que nos digam seja o que for para nos ajudar, por vezes a força para sair do poço não é a suficiente para se conseguir no próprio momento...

é uma luta... e enquanto houver força, será sempre uma luta... uma luta solitária...

quinta-feira, 11 de março de 2021

superação

Vieira de Leiria, 11 de março de 2021 - 23h25



palavra do dia - 11-mar-2021  -  superação


ninguém é mais que alguém!!
todos sorrimos e choramos, apoiamos e ralhamos, aplaudimos e apupamos...
todos temos 2 faces que se adequam ao momento que, por diversos motivos, possam surgir diante de nós...
por vezes estamos cansados, desanimados, desapontados... mas a vida não é isso, é algo que muitas pessoas passam uma vida a pedir ou à procura... algo que, por mais que queiramos, devia ser fácil de obter...
e é... está dentro de cada um de nós ter as forças, os mecanismos de defesa, os gatilhos de ignorar e ultrapassar o que nos quer abater... e a isso chama-se essência!!
é pura, única e incomparável!! é ela que devemos olhar, escutar e seguir!!
custa, como custa!! mas já dizia o anúncio "se não gostarmos de nós, quem gostará?"
e por mim falo... tanto que os (sor)risos escondem... tanto que as brincadeiras encobrem... tanto que tenho de (re)construir que não está à vista...
há que (re)erguer o queixo, olhar em frente, dar o primeiro passo e alcançar o que é preciso para (sor)rir por dentro!!
há que haver, hoje e sempre, superação!!

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

pontes da vida...

Vieira de Leiria, 14 de fevereiro de 2021 - 00h30



nota: antes de leres este texto, aconselho a ler as nossas mochilas pois é, em parte, a continuação...

paro...
a noite está escura e húmida tal como sempre nesta altura do ano...
estou, mais ou menos, no meio da ponte que une as duas margens... não há mais ninguém por perto nem trânsito pois, a esta hora, não se pode circular nas estradas... mas eu arrisquei e vim até aqui deixando o carro numa das margens e fazendo o resto do percurso a pé...
viro-me para o lado da foz e, com as mãos no vão, fecho os olhos e, deixando o vento passar por mim despenteando-me o que resta do cabelo, sorrio enquanto penso que apenas perdi o medo de atravessar pontes quando tinha dezassete anos... e logo no tabuleiro inferior da ponte Ponte Luíz I...
há quem não goste da sensação mas ainda bem pois não podemos nem devemos gostar todos das mesmas coisas... e eu adoro a sensação de liberdade que me faz sentir...
abro os olhos e, olhando para o chão, fixo o olhar na mochila que havia colocado no chão momentos antes... a mochila que me acompanha desde sempre e que estará sempre comigo...
inspiro fundo e coloco a mão direita no bolso do casaco tirando dele dois pequenos papéis, um dos quais com um pequeno furo... fecho a mão com os papéis nela no mesmo instante que fecho os olhos e deixo que a lembrança gravada em mim me invada...

"o comboio havia já chegado e parado mas, por algum motivo, as portas não abriram... duas carruagens atrás de onde estamos chega-nos uma voz a dizer que apenas se pode entrar na última carruagem, mesmo no fim da mesma...
a voz era a do revisor que, ao ver-nos, pôs a cabeça de fora da carruagem através de uma pequena janela e nos informou...
sorrimos e, com as nossas mochilas seguras por ambos, caminhámos em direcção à última carruagem...
enquanto caminhamos apercebo-me, pelo canto do olho, que estás um pouco tensa mas compreendo que esteja associado ao passo que estamos prestes a dar...
pouco antes de chegarmos à carruagem ouço o teu telemóvel a tocar e paramos para o tirares da carteira... vês quem é e baixas o olhar... em seguida, olhas-me nos olhos e dizes que tens de atender pois pode ser importante...
"- está bem. espero por ti ali mais à frente" digo fazendo o gesto com a cabeça indicando o local...
"- não, podes ir entrando" dizes enquanto soltas da mão a minha mochila... olho para ela e solto a minha da tua...
"estou?" ouço-te dizer enquanto atendes o telemóvel e te afastas um pouco... por breves instantes fico a observar-te para depois entrar na carruagem... escolho um banco duplo com outro virado para trás e ponho a minha mochila nele, mesmo à minha frente e sento-me...
olho pela janela e vejo-te um pouco mais afastada do comboio do que quando te deixei a atender a chamada...
sorrio e vejo-o reflectido na janela da carruagem... um simples e quase imperceptível sorriso...
fecho os olhos e revivo o suave toque dos teus lábios nos meus no nosso primeiro beijo... até que ouço bater na janela fazendo-me abrir os olhos...
estás do lado de fora e o teu olhar está fixo no meu... ouço a porta da carruagem fechar e sinto um pequeno solavanco na mesma começando a mover-se lentamente...
pões a tua mão esquerda aberta na janela nunca desviando o teu olhar do meu... ponho a minha mão direita alinhada com a tua na janela como se estivessem a tocar... "desculpa" consigo ler nos teus lábios para depois continuares "tenho medo de voar"...
"- eu sei que tens e nada mais posso fazer além do que já fiz" digo-te...
o comboio começa a ganhar mais movimento e tiras a mão da janela mas não deixando de o acompanhar... sorrio e tiro também a minha mão da janela...
"- não desistas de ti..." digo enquanto aponto para o peito com o dedo indicador...
paras e deixas que o comboio se afaste... ajeito-me no banco e fecho os olhos..."

sinto o vento passar por mim... sorrio e abro os olhos... na mão tenho os bilhetes do comboio e, entre rajadas de vento, deixo que ele os leve...
o meu cabelo, o que sobra dele, é despenteado descompassadamente ao ritmo do vento e é dessa forma que, depois de me baixar e pegar na mochila, me ergo e a ponho ao ombro... nela está o meu caminho, a minha vivência, as minhas memórias, as minhas pessoas, os meus sentimentos... nela está tudo o que sou e atravessei na vida... as pontes da vida...


durante a vida passamos por tantas situações, por tantas "merdas" que nos fazem sentir deslocados, tristes, sós, quietos no nosso canto, sossegados na nossa zona de conforto... e deixamos a vida passar por nós como se fosse possível amanhã nos sentirmos melhor, de resolver, de voltar a (sor)rir... mas esse dia teima muito em não aparecer... e, quando aparece, não lhe damos o devido valor e nos agarramos a ele para nos (re)erguer!! esse dia pode trazer um simples momento que nos preencha a essência com o que necessitamos... seja um encontro, uma festa, um simples café, uma pessoa...

e há pessoas que, simplesmente, entram nas nossas vidas e a fazem ter sentido... pessoas de e com luz própria que nos iluminam e fazem (re)acender a nossa própria luz que havia sido diminuída com o passar do tempo... pessoas que nos surpreendem por serem genuínas e que nos fazem acreditar em nós próprios e que nos fazem crescer como seres humanos... que, ao nos fazerem bem, se sentem bem e crescem também...

a vida é assim mesmo e, por mais que doa, por mais que assuste, por mais medo que se tenha em voltar a confiar, a abrir o peito e entregar o coração, o tempo não pára... a vida é uma metamorfose... não se pode ser uma lagarta a vida toda com medo de se transformar numa borboleta...

há quem nos segure a mão e caminhe connosco lado a lado... é assim que também se atravessam as pontes da vida...

terça-feira, 18 de agosto de 2020

como és tu??

 Vieira de Leiria, 18 de agosto de 2020 - 00h05



"- como és tu?"
a pergunta faz-me abrir os olhos e olhar na tua direcção.
"- o que é que perguntaste?"
o silêncio que pairava antes da pergunta havia feito fechar-me os olhos por alguns momentos. quanto tempo não sei mas foi o suficiente para surgir a pergunta e me fazer voltar a abri-los.
"- como és tu na realidade e porque assinas os teus textos com o nome francisco?", perguntas a sorrir por saber que me acordaste.
"- o nome surgiu por acaso quando escrevi um pequeno livro com a minha história há alguns anos", respondo passando-te uma mão pelo rosto fazendo ficar a palma da mesma junto a ele na qual o aninhas a sorrir.
"- mas, passados todos esses anos, que significado tem para ti esse nome?", perguntas olhando-me nos olhos.
"- sabes, nas letras do nome revejo nelas quase todas as características que fazem de mim ser quem sou. algumas boas outras menos boas. tal como todas as pessoas têm", respondo mantendo o sorriso enquanto te olho e te aproximo de mim com um abraço.
"- então, o que significa a letra F?", perguntas enquanto a desenhas com a ponta do dedo indicador no meu braço.
"- significa um dos principais pilares da minha personalidade: Fidelidade!!", respondo prontamente, para depois continuar "é um pilar importantíssimo na minha vida, não só para comigo mesmo mas também para com quem em mim confia e/ou ama. se a fidelidade não existir não merecemos que em nós confiem"
"- e tu és fiel comigo?" perguntas olhando-me fixamente nos olhos.
"- no dia que te diga que gosto de ti, que te adoro ou que te amo, acredita que já o estou a ser", respondo com o meu olhar preso no teu sem forças de o desviar ou pestanejar.
sorris e beijas-me nos lábios com um suave toque de timidez para depois te afastares ligeiramente.
"- e a letra R, o que significa?"
beijo-te a testa, lenta e suavemente.
"- Respeito, outro dos meus pilares!", respondo depois do beijo. "assim como gosto de respeitar gosto que me respeitem. seja pelo que se diga ou faça. simplesmente há que respeitar o espaço, a liberdade, a vontade de quem quer que seja."
abanas a cabeça em concordância e abres a boca para continuar mas interrompo.
"- e com a mesma letra ainda existe a Responsabilidade pois é algo que devemos sempre assumir perante quem nos põe em causa por algum motivo. e também tenho outra característica que pode parecer menos boa mas não o é de todo."
"- qual é?", perguntas fazendo expressão de curiosidade.
"- Resmungão!!", digo calmamente.
soltas uma gargalhada como há muito não ouvia.
"- e tu és muito", dizes, para depois voltar a rir.
"- sim, sou. mas ser resmungão não é algo depreciativo. quando resmungo, e são várias vezes por dia, faço-o quando vejo ou sei de algo que não é correcto ou justo para mim ou para alguém. por vezes não resolve nada resmungar mas é uma maneira de mostrar indignação. e por isso mesmo é, para mim uma característica como as outras."
"- tens razão.", dizes enquanto sorris. "e és um bom resmungão".
"- e chegamos à letra A. tens ideia do que seja?"
"- julgo que sei mas prefiro que sejas tu a dizê-lo", dizes enquanto piscas um olho.
"- Amigo!", digo fazendo uma pausa antes de continuar "algo que não sou com qualquer pessoa pois assim a vida me ensinou não da melhor forma. e também Ansiedade, essa mesma que, infelizmente não é ainda compreendida por muitas pessoas que não sabem o que ela pode fazer na vida das pessoas que a têm e não a conseguem controlar ou anular."
"- pois. e faz alguns estragos nas pessoas que a têm, não é?", perguntas enquanto passas a mão pelo meu braço.
"- sim faz. não é fácil torná-la irrelevante e pô-la fora de quem a tem ou até mesmo a um canto adormecida. mas ainda há mais uma característica associada à letra. tens alguma ideia de qual seja?", pergunto enquanto me aconchego a ti.
"- será Abraço?" perguntas enquanto também te aconchegas a mim.
"- sim, é", respondo enquanto nos abraçamos. "e o nosso é..."
interrompes-me pondo a mão a tapar-me a boca.
"- eu sei como é, não precisas de o dizer!", dizes a sorrir destapando-me a boca para em seguida me beijares os lábios lenta e suavemente durante um momento impreciso.
"- então e a letra N refere-se a quê?", perguntas ao afastar-mo-nos.
"- a mais simples de todas. Natural!", respondo. "a naturalidade das pessoas é algo que devia existir sempre e não ser camuflada. ser-se tal como se é, sem filtros nem maquilhagens ou adornos."
"- concordo contigo pois és assim comigo, sem filtros", dizes sem hesitação. "e agora tens a letra C que é uma letra que se repete quase no fim do nome. vais dizer quais são as características apenas nesta?
"- não, vou dividi-las pelas duas."
"- está bem. e quais são?", perguntas com ar curioso.
"- Confidente e Compreensivo, que são duas das principais características que são precisas na vida."
"- e estão ajustadas a ti pois tem-nas contigo em relação a mim. és o meu confidente em qualquer assunto e apesar de, por vezes, não concordares comigo, és compreensivo. simplesmente por quereres o melhor para mim. para nós.", dizes enquanto me olhas ficando com um sorriso quando terminas de falar.
"- obrigado pelas tuas palavras, significam muito para mim.", devolvo o sorriso e abraçamo-nos novamente.
"- e a letra I, qual é?", sussurras-me ao ouvido ainda durante o abraço.
"- Invisível.", sussurro no teu ouvido.
"- invisível? porquê?", perguntas depois de te afastares ligeiramente.
"- porque ninguém me vê com os olhos. tal como escreveu saint-exupéry, "só se vê bem com o coração. o essencial é invisível para os olhos". e tu..."
"- vi-te com o meu coração.", dizes concluindo a minha frase.
"- exactamente. viste-me da melhor maneira de se ver realmente as pessoas. daí ser invisível."
sorris-me e abraças-me como ainda não o tinhas feito desde o início da nossa conversa. e retribuo da mesma forma pois assim o é o nosso abraço.
novamente, afastas-te ligeiramente e perguntas.
"- e a letra S é de Sensibilidade, acertei?", terminas a pergunta com um piscar de olho.
"- conheces-me e, mais uma vez, estás certa!", sorrio-te. "e não preciso de to explicar pois sabes bem o significado."
"- pois sei!! e é mais alguma?", perguntas com olhar intrigado.
"- sim, Sinceridade e Simplicidade, outros dos meus pilares, que fazem ser como sou, que me moldaram ao longo de toda a minha vida"
"- concordo completamente contigo!! e agora passamos à letra seguinte?"
"- ainda há mais uma, consegues adivinhar qual é?", pergunto-te a sorrir.
"- mais uma? não estou a ver qual seja.", dizes enquanto no teu rosto surge uma expressão de dúvida.
"- Sorriso!", digo pausadamente enquanto vejo a tua expressão mudar lentamente para a palavra que acabo de dizer. "sorriso é uma palavra que me acompanha há muitos anos desde uma fase menos boa na minha vida. e nessa altura li algures "sorri para a vida para que a vida te sorria" e achei-a como se fosse um lema de vida e acrescentei-lhe no final "e se a vida não te sorrir, mostra-lhe a tua língua". e assim tem sido. mas com o passar dos anos, por vezes, o sorriso não chega e temos de rir e daí escrever muitas vezes a palavra (sor)riso! por mais que a vida não flua como gostaríamos que fluísse, temos de lhe sorrir. e, daqui a poucos anos, vou ter mais rugas e quero que sejam de me rir e então saberei que valeu a pena tê-las!"
"- e tu fazes-me (sor)rir muitas vezes", dizes-me com um sorriso nos lábios.
"- obrigado. saber isso faz-me sentir bem pois gosto muito de te fazer (sor)rir, de te ver sorrir, de te ouvir rir pois assim não pensas nem dás importância por algum tempo às coisas menos boas que surgem no dia a dia."
"- verdade. e eu gosto muito que me faças sentir assim.", dizes voltando a abraçares-me e fazendo retribuir o gesto.
"- e qual é a segunda parte da letra C?", perguntas enquanto te manténs abraçada a mim.
"- Confiança!", digo-te abraçado a ti. "a mesma que apenas é conseguida com mérito, com perseverança, com atitudes que mostrem ser-se digno de a ter. e muita gente, por mais que queira, por mais que tente, nunca há-de ter."
"- e eu tenho a tua confiança.", dizes ainda abraçada a mim.
"- tens. e eu tenho a tua.", digo enquanto passo uma mão suavemente pelo teu cabelo. "conseguimo-la dar de uma forma tão simples que ainda hoje tentamos perceber como foi."
"- verdade!", dizes enquanto sorris para depois perguntar "há mais alguma com essa letra?"
"- sim, Companheiro! aquele que estará sempre ao teu lado mesmo nos dias que não queres ter ninguém por perto e que te dá a mão e não ta larga por mais que a vida queira o contrário. e por mais que as suas adversidades nos queiram separá-las, teremos sempre os dedos que se entrelaçarão e farão com que as palmas das mãos se voltem a unir e apertar com mais força."
voltas a sorrir e apertas mais o nosso abraço. aperto também um pouco mas não o faço com tanta força para não te magoar.
"- e chegámos à última letra.", dizes antes de te voltares a afastar ligeiramente e olhares-me fixamente durante breves instantes. finalmente, em tom e expressão curiosos, perguntas "e o que é a letra O?"
"- tenho duas. a primeira é Orgulho!", respondo-te.
"- mas o orgulho não é algo menos bom?", perguntas com expressão de desaprovo.
"- se se tratar de ser orgulhoso, sim é!", respondo olhando-te nos olhos para depois continuar "mas este orgulho é no ter. tenho orgulho quando atinjo algo em que me empenhei e consegui. tenho orgulho de te ter na minha vida e permitires que esteja na tua. orgulho na minha família que nunca me deixou desistir e que sempre esteve e está comigo nos momentos menos bons. orgulho em ver os meus sobrinhos crescerem e formarem a sua própria personalidade e alcançarem os seus objectivos..."
"- ... os teus sobrinhos são muito importantes para ti!", interrompes-me e pões uma mão no meu rosto.
"- sim, são parte de um sonho que, com o passar dos anos, se transmutou e me preenchem uma parte do coração", respondo-te antes de te beijar a palma da mão.
sorris e perguntas.
"- e qual é a segunda?"
"- Ouvinte!", respondo-te. e quando ia para continuar, deslizas a mão tapando-me novamente a boca.
"- esta explico eu.", dizes a sorrir para depois continuares "és um excelente ouvinte. mesmo quando estás nos teus dias menos bons, deixas de lado o que te chateia, te preocupa e ouves quem te procura para desabafar. e eu sou uma dessas pessoas que te procura. que te digo o que se passa comigo, com o meu dia a dia, com alguma situação inesperada. que posso falar durante minutos ou horas e tu, simplesmente ouves para depois dares a tua opinião ou aconselhares. és muito importante para mim pois é contigo que me sinto eu mesma, tal como sou quando falo contigo. e tu sempre me ouviste e ouves e pedes sempre para falar pois sabes que me sentirei melhor se o fizer."
sorrio. abraço-te. abraças-me. abraçamo-nos.
"- obrigado pelas tuas palavras.", sussurro-te ao ouvido.
"- não tens que agradecer, basta ouvires-me.", respondes-me em sussurro para em seguida te rires.
afasto-te ligeiramente e beijo-te a testa.
"- sabes que gosto muito de ti!", digo-te olhando-te nos olhos.
"- e eu de ti!!", dizes enquanto fixas o teu olhar no meu. "mas o teu gostar de mim é muito mais do que dizes. é amar-me, não é?"
"- é!", respondo prontamente. "e há-de ser sempre. até ao dia que não haja pôr do sol, que não desapareça na linha do horizonte banhado pelo mar."
"- queres dizer que é para sempre?"
"- claro! ou se ama para sempre..."
"- ...ou nunca se amou verdadeiramente! fernando pessoa", terminas-me a frase.
"- ele já sabia que nos íamos encontrar muitos anos depois de o ter escrito", digo sorrindo-te.
beijas-me. beijo-te. beijamo-nos. lenta, suave e intensamente.
paramos e ficamos a olhar-nos com um sorriso nos lábios.
"- tens sonhos."
"- sim, tenho alguns."
"- mas não os podes realizar todos se estivermos juntos. sabes isso."
"- sei e não me preocupo com isso. os sonhos que tenho é de alguém que está só. e há sonhos que se transformam quando se deixa de estar só e se passa a sonhar juntamente com a pessoa que está ao nosso lado"
"- e se um dia te arrependes de abdicar de um dos teus sonhos por ficarmos juntos?", perguntas olhando-me seriamente e algo afastada.
"- não vou arrepender pois estarei a realizar outro sonho. o de estarmos juntos. o de sermos um só em amor", respondo-te com o olhar fixo no teu.
"- dizes isso agora..."
"- ... tal como to vou dizer daqui a cinco, dez, vinte anos. daqui a uma vida inteira", termino a tua frase e beijo-te a testa. "amar alguém é aceitar a pessoa que está ao nosso lado tal como é, seja exterior ou interiormente!! é aceitar as suas "imperfeições". e o ser humano é perfeitamente imperfeito!!"
"- e sabes que vou ter momentos em que vou estar..."
"- sei! e assusta-me um pouco estares assim. mas vou estar por perto em silêncio ou, simplesmente, a abraçar-te ou a dar-te a mão, a apoiar-te, a puxar-te para onde deves estar sempre!!"
"- e vais fartar-te de mim."
"- não, pois já te conheço melhor que qualquer pessoa. e vou conhecer ainda mais", digo-te puxando o teu corpo para junto do meu.
"- sei o que significa para ti a palavra, mas eras capaz de prometer que..."
"- ... minha querida, ao dizer o que significa a letra F é, em parte, prometer. prometer até ao dia que a terra pare de girar!!", termino a tua frase e abraço-te sentindo o teu corpo junto ao meu para, em seguida, sentir os teus braços em mim. "vamos viver a vida. vamos ensinar e mostrar um ao outro aquilo que não sabemos e que nos vai fazer crescer. e digo-te aquilo que escrevi há alguns dias "o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, não escolhe cores nem idades... não escolhe extractos sociais nem profissões... não escolhe formas nem aparências... não escolhe pesos nem roupas... o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, nada escolhe... o amor faz com que as essências se encontrem... faz com que as almas se reencontrem e se fundam... faz com que a vida faça (mais) sentido... faz sentir com que a solidão não exista... o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, simplesmente aparece quando menos se espera... e há que vivê-lo intensamente..."
sorris e abanas a cabeça dizendo que sim.
"- e tal como escreveste há 2 anos "julgamos ser donos e senhores do tempo que temos, que vivemos... mas não é nem nunca foi nem nunca assim será... os segundos passam... os minutos passam... as horas passam... os dias transformam-se em semanas e estas em meses e em anos... e muitas vezes apenas nos apercebemos quando olhamos para trás e pouco ou nada vimos... procuramos esquecer ou até mesmo fugir de algo que nos incomoda, que nos quer consumir e perdemos a noção do tempo... e há ainda aquela fuga de nós próprios, de algo que, quem sabe, nos pode preencher com um sentimento que nos faz sentir completos... e um dia, depois de nos termos feito pseudo donos e senhores de um tempo que não é nosso, vimos que o tempo que vivemos passou ao lado do tempo que realmente devíamos ter vivido... pára... pensa... pondera nos prós e contras... arrisca... se der certo, vive!! se não der, ao menos tentaste... e um dia o tempo dar-te-á uma nova oportunidade... sorri (e faz sorrir)... sempre!!", lês de uma folha que havias imprimido horas antes para depois dizeres, antes de nos abraçarmos "faz-me (sor)rir sempre!!"
fecho os olhos e sinto cada toque do nosso abraço e todos os sentimentos que ele expressa em mim. sorrio e suspiro fundo até que. uma melodia ao longe se faz ouvir. primeiro, mais baixa. depois, o som vai aumentando.
abro os olhos e, esticando o braço direito, ponho o dedo indicador no despertador.



por vezes a vida faz-nos parar, isolar e pensar no sentido que ela tem para connosco. por vezes faz-nos sentir vazios por dentro quando não vimos um propósito ou uma missão nela e deita-nos abaixo. faz-nos sentir tristes, faz-nos chorar, faz-nos desesperar por tentar compreendê-la, faz-nos, por vezes, querer desistir. mas nada do que ela nos faz nestes momentos pode ou deve influenciar naquilo que somos connosco próprios ou para com quem nos rodeia, sejam mais ou menos próximos ou até mesmo nada.

quem somos foi construído com base do que nos foi transmitido por quem nos educou, pelas suas características, pelas suas vivências, pelas suas vitórias e derrotas. mas também nos fomos moldando ao longo dos anos, com as nossas quedas e com o levantar delas, com a falsidade escondida em bondade pelas pessoas, pelas decepções, pelas conquistas, por aquela pessoa que nos deu a mão e nos mostrou o melhor de nós sem nada pedir em troca, um simples agradecimento por um gesto que tivemos.

cada pessoa é diferente de quem quer que seja. seja nas habilidades ou nas habilitações, seja no conhecimento ou na cultura geral, seja nos trabalhos domésticos ou na vida profissional. ninguém se deve comparar com quem quer que seja. e no amor não é excepção. se ontem, alguém que estava ao teu lado há algum tempo, não foi correcto e cada um seguiu o seu caminho, hoje, a pessoa que luta para estar ao teu lado pode ser a que te vai ajudar a reerguer. se a vires com o coração e gostares muito de estarem juntos, volta a confiar que a vida te deu novo fôlego para seres feliz e, quem sabe, para o resto da tua vida.

nunca, mas mesmo nunca, desistas de ser feliz!! (sor)ri e põe a língua de fora à vida e ela encarregar-se-á de te retribuir tudo de bom que ela tem!!