Vieira de Leiria, 18 de agosto de 2020 - 00h05

"- como és tu?"
a pergunta faz-me abrir os olhos e olhar na tua direcção.
"- o que é que perguntaste?"
o silêncio que pairava antes da pergunta havia feito fechar-me os olhos por alguns momentos. quanto tempo não sei mas foi o suficiente para surgir a pergunta e me fazer voltar a abri-los.
"- como és tu na realidade e porque assinas os teus textos com o nome francisco?", perguntas a sorrir por saber que me acordaste.
"- o nome surgiu por acaso quando escrevi um pequeno livro com a minha história há alguns anos", respondo passando-te uma mão pelo rosto fazendo ficar a palma da mesma junto a ele na qual o aninhas a sorrir.
"- mas, passados todos esses anos, que significado tem para ti esse nome?", perguntas olhando-me nos olhos.
"- sabes, nas letras do nome revejo nelas quase todas as características que fazem de mim ser quem sou. algumas boas outras menos boas. tal como todas as pessoas têm", respondo mantendo o sorriso enquanto te olho e te aproximo de mim com um abraço.
"- então, o que significa a letra F?", perguntas enquanto a desenhas com a ponta do dedo indicador no meu braço.
"- significa um dos principais pilares da minha personalidade: Fidelidade!!", respondo prontamente, para depois continuar "é um pilar importantíssimo na minha vida, não só para comigo mesmo mas também para com quem em mim confia e/ou ama. se a fidelidade não existir não merecemos que em nós confiem"
"- e tu és fiel comigo?" perguntas olhando-me fixamente nos olhos.
"- no dia que te diga que gosto de ti, que te adoro ou que te amo, acredita que já o estou a ser", respondo com o meu olhar preso no teu sem forças de o desviar ou pestanejar.
sorris e beijas-me nos lábios com um suave toque de timidez para depois te afastares ligeiramente.
"- e a letra R, o que significa?"
beijo-te a testa, lenta e suavemente.
"- Respeito, outro dos meus pilares!", respondo depois do beijo. "assim como gosto de respeitar gosto que me respeitem. seja pelo que se diga ou faça. simplesmente há que respeitar o espaço, a liberdade, a vontade de quem quer que seja."
abanas a cabeça em concordância e abres a boca para continuar mas interrompo.
"- e com a mesma letra ainda existe a Responsabilidade pois é algo que devemos sempre assumir perante quem nos põe em causa por algum motivo. e também tenho outra característica que pode parecer menos boa mas não o é de todo."
"- qual é?", perguntas fazendo expressão de curiosidade.
"- Resmungão!!", digo calmamente.
soltas uma gargalhada como há muito não ouvia.
"- e tu és muito", dizes, para depois voltar a rir.
"- sim, sou. mas ser resmungão não é algo depreciativo. quando resmungo, e são várias vezes por dia, faço-o quando vejo ou sei de algo que não é correcto ou justo para mim ou para alguém. por vezes não resolve nada resmungar mas é uma maneira de mostrar indignação. e por isso mesmo é, para mim uma característica como as outras."
"- tens razão.", dizes enquanto sorris. "e és um bom resmungão".
"- e chegamos à letra A. tens ideia do que seja?"
"- julgo que sei mas prefiro que sejas tu a dizê-lo", dizes enquanto piscas um olho.
"- Amigo!", digo fazendo uma pausa antes de continuar "algo que não sou com qualquer pessoa pois assim a vida me ensinou não da melhor forma. e também Ansiedade, essa mesma que, infelizmente não é ainda compreendida por muitas pessoas que não sabem o que ela pode fazer na vida das pessoas que a têm e não a conseguem controlar ou anular."
"- pois. e faz alguns estragos nas pessoas que a têm, não é?", perguntas enquanto passas a mão pelo meu braço.
"- sim faz. não é fácil torná-la irrelevante e pô-la fora de quem a tem ou até mesmo a um canto adormecida. mas ainda há mais uma característica associada à letra. tens alguma ideia de qual seja?", pergunto enquanto me aconchego a ti.
"- será Abraço?" perguntas enquanto também te aconchegas a mim.
"- sim, é", respondo enquanto nos abraçamos. "e o nosso é..."
interrompes-me pondo a mão a tapar-me a boca.
"- eu sei como é, não precisas de o dizer!", dizes a sorrir destapando-me a boca para em seguida me beijares os lábios lenta e suavemente durante um momento impreciso.
"- então e a letra N refere-se a quê?", perguntas ao afastar-mo-nos.
"- a mais simples de todas. Natural!", respondo. "a naturalidade das pessoas é algo que devia existir sempre e não ser camuflada. ser-se tal como se é, sem filtros nem maquilhagens ou adornos."
"- concordo contigo pois és assim comigo, sem filtros", dizes sem hesitação. "e agora tens a letra C que é uma letra que se repete quase no fim do nome. vais dizer quais são as características apenas nesta?
"- não, vou dividi-las pelas duas."
"- está bem. e quais são?", perguntas com ar curioso.
"- Confidente e Compreensivo, que são duas das principais características que são precisas na vida."
"- e estão ajustadas a ti pois tem-nas contigo em relação a mim. és o meu confidente em qualquer assunto e apesar de, por vezes, não concordares comigo, és compreensivo. simplesmente por quereres o melhor para mim. para nós.", dizes enquanto me olhas ficando com um sorriso quando terminas de falar.
"- obrigado pelas tuas palavras, significam muito para mim.", devolvo o sorriso e abraçamo-nos novamente.
"- e a letra I, qual é?", sussurras-me ao ouvido ainda durante o abraço.
"- Invisível.", sussurro no teu ouvido.
"- invisível? porquê?", perguntas depois de te afastares ligeiramente.
"- porque ninguém me vê com os olhos. tal como escreveu saint-exupéry, "só se vê bem com o coração. o essencial é invisível para os olhos". e tu..."
"- vi-te com o meu coração.", dizes concluindo a minha frase.
"- exactamente. viste-me da melhor maneira de se ver realmente as pessoas. daí ser invisível."
sorris-me e abraças-me como ainda não o tinhas feito desde o início da nossa conversa. e retribuo da mesma forma pois assim o é o nosso abraço.
novamente, afastas-te ligeiramente e perguntas.
"- e a letra S é de Sensibilidade, acertei?", terminas a pergunta com um piscar de olho.
"- conheces-me e, mais uma vez, estás certa!", sorrio-te. "e não preciso de to explicar pois sabes bem o significado."
"- pois sei!! e é mais alguma?", perguntas com olhar intrigado.
"- sim, Sinceridade e Simplicidade, outros dos meus pilares, que fazem ser como sou, que me moldaram ao longo de toda a minha vida"
"- concordo completamente contigo!! e agora passamos à letra seguinte?"
"- ainda há mais uma, consegues adivinhar qual é?", pergunto-te a sorrir.
"- mais uma? não estou a ver qual seja.", dizes enquanto no teu rosto surge uma expressão de dúvida.
"- Sorriso!", digo pausadamente enquanto vejo a tua expressão mudar lentamente para a palavra que acabo de dizer. "sorriso é uma palavra que me acompanha há muitos anos desde uma fase menos boa na minha vida. e nessa altura li algures "sorri para a vida para que a vida te sorria" e achei-a como se fosse um lema de vida e acrescentei-lhe no final "e se a vida não te sorrir, mostra-lhe a tua língua". e assim tem sido. mas com o passar dos anos, por vezes, o sorriso não chega e temos de rir e daí escrever muitas vezes a palavra (sor)riso! por mais que a vida não flua como gostaríamos que fluísse, temos de lhe sorrir. e, daqui a poucos anos, vou ter mais rugas e quero que sejam de me rir e então saberei que valeu a pena tê-las!"
"- e tu fazes-me (sor)rir muitas vezes", dizes-me com um sorriso nos lábios.
"- obrigado. saber isso faz-me sentir bem pois gosto muito de te fazer (sor)rir, de te ver sorrir, de te ouvir rir pois assim não pensas nem dás importância por algum tempo às coisas menos boas que surgem no dia a dia."
"- verdade. e eu gosto muito que me faças sentir assim.", dizes voltando a abraçares-me e fazendo retribuir o gesto.
"- e qual é a segunda parte da letra C?", perguntas enquanto te manténs abraçada a mim.
"- Confiança!", digo-te abraçado a ti. "a mesma que apenas é conseguida com mérito, com perseverança, com atitudes que mostrem ser-se digno de a ter. e muita gente, por mais que queira, por mais que tente, nunca há-de ter."
"- e eu tenho a tua confiança.", dizes ainda abraçada a mim.
"- tens. e eu tenho a tua.", digo enquanto passo uma mão suavemente pelo teu cabelo. "conseguimo-la dar de uma forma tão simples que ainda hoje tentamos perceber como foi."
"- verdade!", dizes enquanto sorris para depois perguntar "há mais alguma com essa letra?"
"- sim, Companheiro! aquele que estará sempre ao teu lado mesmo nos dias que não queres ter ninguém por perto e que te dá a mão e não ta larga por mais que a vida queira o contrário. e por mais que as suas adversidades nos queiram separá-las, teremos sempre os dedos que se entrelaçarão e farão com que as palmas das mãos se voltem a unir e apertar com mais força."
voltas a sorrir e apertas mais o nosso abraço. aperto também um pouco mas não o faço com tanta força para não te magoar.
"- e chegámos à última letra.", dizes antes de te voltares a afastar ligeiramente e olhares-me fixamente durante breves instantes. finalmente, em tom e expressão curiosos, perguntas "e o que é a letra O?"
"- tenho duas. a primeira é Orgulho!", respondo-te.
"- mas o orgulho não é algo menos bom?", perguntas com expressão de desaprovo.
"- se se tratar de ser orgulhoso, sim é!", respondo olhando-te nos olhos para depois continuar "mas este orgulho é no ter. tenho orgulho quando atinjo algo em que me empenhei e consegui. tenho orgulho de te ter na minha vida e permitires que esteja na tua. orgulho na minha família que nunca me deixou desistir e que sempre esteve e está comigo nos momentos menos bons. orgulho em ver os meus sobrinhos crescerem e formarem a sua própria personalidade e alcançarem os seus objectivos..."
"- ... os teus sobrinhos são muito importantes para ti!", interrompes-me e pões uma mão no meu rosto.
"- sim, são parte de um sonho que, com o passar dos anos, se transmutou e me preenchem uma parte do coração", respondo-te antes de te beijar a palma da mão.
sorris e perguntas.
"- e qual é a segunda?"
"- Ouvinte!", respondo-te. e quando ia para continuar, deslizas a mão tapando-me novamente a boca.
"- esta explico eu.", dizes a sorrir para depois continuares "és um excelente ouvinte. mesmo quando estás nos teus dias menos bons, deixas de lado o que te chateia, te preocupa e ouves quem te procura para desabafar. e eu sou uma dessas pessoas que te procura. que te digo o que se passa comigo, com o meu dia a dia, com alguma situação inesperada. que posso falar durante minutos ou horas e tu, simplesmente ouves para depois dares a tua opinião ou aconselhares. és muito importante para mim pois é contigo que me sinto eu mesma, tal como sou quando falo contigo. e tu sempre me ouviste e ouves e pedes sempre para falar pois sabes que me sentirei melhor se o fizer."
sorrio. abraço-te. abraças-me. abraçamo-nos.
"- obrigado pelas tuas palavras.", sussurro-te ao ouvido.
"- não tens que agradecer, basta ouvires-me.", respondes-me em sussurro para em seguida te rires.
afasto-te ligeiramente e beijo-te a testa.
"- sabes que gosto muito de ti!", digo-te olhando-te nos olhos.
"- e eu de ti!!", dizes enquanto fixas o teu olhar no meu. "mas o teu gostar de mim é muito mais do que dizes. é amar-me, não é?"
"- é!", respondo prontamente. "e há-de ser sempre. até ao dia que não haja pôr do sol, que não desapareça na linha do horizonte banhado pelo mar."
"- queres dizer que é para sempre?"
"- claro! ou se ama para sempre..."
"- ...ou nunca se amou verdadeiramente! fernando pessoa", terminas-me a frase.
"- ele já sabia que nos íamos encontrar muitos anos depois de o ter escrito", digo sorrindo-te.
beijas-me. beijo-te. beijamo-nos. lenta, suave e intensamente.
paramos e ficamos a olhar-nos com um sorriso nos lábios.
"- tens sonhos."
"- sim, tenho alguns."
"- mas não os podes realizar todos se estivermos juntos. sabes isso."
"- sei e não me preocupo com isso. os sonhos que tenho é de alguém que está só. e há sonhos que se transformam quando se deixa de estar só e se passa a sonhar juntamente com a pessoa que está ao nosso lado"
"- e se um dia te arrependes de abdicar de um dos teus sonhos por ficarmos juntos?", perguntas olhando-me seriamente e algo afastada.
"- não vou arrepender pois estarei a realizar outro sonho. o de estarmos juntos. o de sermos um só em amor", respondo-te com o olhar fixo no teu.
"- dizes isso agora..."
"- ... tal como to vou dizer daqui a cinco, dez, vinte anos. daqui a uma vida inteira", termino a tua frase e beijo-te a testa. "amar alguém é aceitar a pessoa que está ao nosso lado tal como é, seja exterior ou interiormente!! é aceitar as suas "imperfeições". e o ser humano é perfeitamente imperfeito!!"
"- e sabes que vou ter momentos em que vou estar..."
"- sei! e assusta-me um pouco estares assim. mas vou estar por perto em silêncio ou, simplesmente, a abraçar-te ou a dar-te a mão, a apoiar-te, a puxar-te para onde deves estar sempre!!"
"- e vais fartar-te de mim."
"- não, pois já te conheço melhor que qualquer pessoa. e vou conhecer ainda mais", digo-te puxando o teu corpo para junto do meu.
"- sei o que significa para ti a palavra, mas eras capaz de prometer que..."
"- ... minha querida, ao dizer o que significa a letra F é, em parte, prometer. prometer até ao dia que a terra pare de girar!!", termino a tua frase e abraço-te sentindo o teu corpo junto ao meu para, em seguida, sentir os teus braços em mim. "vamos viver a vida. vamos ensinar e mostrar um ao outro aquilo que não sabemos e que nos vai fazer crescer. e digo-te aquilo que escrevi há alguns dias "o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, não escolhe cores nem idades... não escolhe extractos sociais nem profissões... não escolhe formas nem aparências... não escolhe pesos nem roupas... o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, nada escolhe... o amor faz com que as essências se encontrem... faz com que as almas se reencontrem e se fundam... faz com que a vida faça (mais) sentido... faz sentir com que a solidão não exista... o amor, o puro e verdadeiro, o único e genuíno, simplesmente aparece quando menos se espera... e há que vivê-lo intensamente..."
sorris e abanas a cabeça dizendo que sim.
"- e tal como escreveste há 2 anos "julgamos ser donos e senhores do tempo que temos, que vivemos... mas não é nem nunca foi nem nunca assim será... os segundos passam... os minutos passam... as horas passam... os dias transformam-se em semanas e estas em meses e em anos... e muitas vezes apenas nos apercebemos quando olhamos para trás e pouco ou nada vimos... procuramos esquecer ou até mesmo fugir de algo que nos incomoda, que nos quer consumir e perdemos a noção do tempo... e há ainda aquela fuga de nós próprios, de algo que, quem sabe, nos pode preencher com um sentimento que nos faz sentir completos... e um dia, depois de nos termos feito pseudo donos e senhores de um tempo que não é nosso, vimos que o tempo que vivemos passou ao lado do tempo que realmente devíamos ter vivido... pára... pensa... pondera nos prós e contras... arrisca... se der certo, vive!! se não der, ao menos tentaste... e um dia o tempo dar-te-á uma nova oportunidade... sorri (e faz sorrir)... sempre!!", lês de uma folha que havias imprimido horas antes para depois dizeres, antes de nos abraçarmos "faz-me (sor)rir sempre!!"
fecho os olhos e sinto cada toque do nosso abraço e todos os sentimentos que ele expressa em mim. sorrio e suspiro fundo até que. uma melodia ao longe se faz ouvir. primeiro, mais baixa. depois, o som vai aumentando.
abro os olhos e, esticando o braço direito, ponho o dedo indicador no despertador.
por vezes a vida faz-nos parar, isolar e pensar no sentido que ela tem para connosco. por vezes faz-nos sentir vazios por dentro quando não vimos um propósito ou uma missão nela e deita-nos abaixo. faz-nos sentir tristes, faz-nos chorar, faz-nos desesperar por tentar compreendê-la, faz-nos, por vezes, querer desistir. mas nada do que ela nos faz nestes momentos pode ou deve influenciar naquilo que somos connosco próprios ou para com quem nos rodeia, sejam mais ou menos próximos ou até mesmo nada.
quem somos foi construído com base do que nos foi transmitido por quem nos educou, pelas suas características, pelas suas vivências, pelas suas vitórias e derrotas. mas também nos fomos moldando ao longo dos anos, com as nossas quedas e com o levantar delas, com a falsidade escondida em bondade pelas pessoas, pelas decepções, pelas conquistas, por aquela pessoa que nos deu a mão e nos mostrou o melhor de nós sem nada pedir em troca, um simples agradecimento por um gesto que tivemos.
cada pessoa é diferente de quem quer que seja. seja nas habilidades ou nas habilitações, seja no conhecimento ou na cultura geral, seja nos trabalhos domésticos ou na vida profissional. ninguém se deve comparar com quem quer que seja. e no amor não é excepção. se ontem, alguém que estava ao teu lado há algum tempo, não foi correcto e cada um seguiu o seu caminho, hoje, a pessoa que luta para estar ao teu lado pode ser a que te vai ajudar a reerguer. se a vires com o coração e gostares muito de estarem juntos, volta a confiar que a vida te deu novo fôlego para seres feliz e, quem sabe, para o resto da tua vida.
nunca, mas mesmo nunca, desistas de ser feliz!! (sor)ri e põe a língua de fora à vida e ela encarregar-se-á de te retribuir tudo de bom que ela tem!!
Sem comentários:
Enviar um comentário