
Clic.
Um simples gesto faz com que, o que outrora era uma divisão da casa envolta na penumbra da noite, ganhe uma cor ténue que, com o passar dos segundos, passa a uma cor mais nítida.
Entro no escritório e sorrio enquanto me encaminho para o cadeirão que está a um canto.
Sento-me nele e desfolho o livro que trazia na mão até à página marcada. Retomo a leitura envolto no quase silêncio da casa.
Poucos minutos depois, surges à porta e mostras-me o teu sorriso rasgado aos veres-me a ler. Sorrio de volta e pisco o olho num gesto de cumplicidade.
Nos minutos que se seguem apenas se ouve o dedilhar no teclado do computador, as páginas do livro a serem desfolhadas e um ou outro suspiro solto sem querer.
Clic.
Quando nada o fazia prever, o quase silêncio é interrompido quando me perguntas:
- "Queres dormir cá hoje?"
- "Estás a falar a sério?" - respondo algo incrédulo julgando ter ouvido mal.
- "Hmm hmm, estou!" - dizes com um sorriso maroto mostrando-me depois a ponta da língua e piscando um olho.
Seguro o marcador que tinha posto na perna e coloco-o no livro marcando onde a leitura foi subitamente interrompida. Levanto-me e pouso o livro no canto da secretária, contornando-a e aproximo-me de ti.
Sentada na cadeira em frente à secretária desde que chegaste, observas-me com um sorriso enquanto me aproximo de ti e fico mesmo por detrás de ti.
Lentamente, baixo-me e envolvo-te com os meus braços. Ao senti-los, levantas uma mão e seguras-me um dos braços e repousas a cabeça no outro braço.
Clic.
Beijo-te a cabeça e, sorvendo o cheiro do teu shampoo, aproximo a minha boca da tua orelha e digo, sussurrando:
- "Amo-te, muito!!"
Voltas a sorrir e afastas-me. Rodas a cadeira e levantas-te ficando diante de mim, abraçando-me e sendo abraçada.
Os nossos lábios roçam-se uma e outra vez até que se tocam lentamente e lentamente partem à descoberta das muitas sensações inerentes ao beijo.
De um salto, escarranchas-te em mim com uma perna de cada lado do meu corpo, as quais seguro firmemente enquanto continuas a abraçar-me e a beijar-me como se fossemos um íman.
Lentamente, caminho para a porta do escritório quando de repente paras de me beijar e me olhas nos olhos. Com o teu olhar misterioso e penetrante voltas a sorrir mas, desta vez, de uma maneira ainda mais íntima.
Continuo a andar mas dizes para parar e recuar dois passos. Quando faço, levas o dedo ao interruptor.
Clic.
muitos dos acontecimentos que se sucedem na vida são precedidos de simples clic's...
clic's esses que, muitas das vezes nem nos apercebemos que acontecem... que, simplesmente, nos passam ao lado...
e é assim a vida... um simples clic...
um clic que nos faz lembrar algo que há muito tempo já nos tínhamos esquecido...
um clic que nos faz sonhar com algo adormecido...
um clic que nos faz ver uma pessoa de outra maneira...
um clic que nos faz perder alguém que é próximo...
tantos e tantos clic's que nos acompanham a vida inteira...
não desperdices um clic quando o vês, ouves ou sentes...
um dia pode ser tarde demais...
um clic dá, um clic tira...
já dizia o saudoso António Feio...
a vida, pura e simplesmente, é um... clic

Sem comentários:
Enviar um comentário