Vieira de Leiria, 12 de Abril de 2017 - 23h30
depois de tocar à campainha e a porta da rua ser destrancada, releio a tua mensagem no telemóvel enquanto subo os degraus... "preciso muito de ti. podes vir ter cá a casa? beijo" e penso no que poderá estar a acontecer...
ponho o telemóvel no bolso e, chegado à porta vejo que esta está destrancada e encostada ao aro. afasto-a e, o que julgava estar iluminado, encontra-se numa penumbra total...
chamo-te mas não obtenho resposta...
fecho a porta e rodo a chave que se encontra no canhão da fechadura e corro o fecho de segurança...
não acendo a luz e decido ir ao quarto ver se estás lá... abro a porta e avanço sem fazer barulho em direcção à cama... toco-a ao de leve mas não há qualquer sinal de ti... "onde estarás?" penso...
saio para o corredor e tiro o telemóvel do bolso e envio-te mensagem "a porta estava aberta, não estás em casa? beijo"...
ao arrumar o telemóvel no bolso ouço o som do teu telemóvel a indicar nova mensagem...
"mas... onde estarás?" penso, detendo o movimento da mão que tem o telemóvel... ilumino o écran do mesmo e percorro todas as divisões em busca de um sinal de ti...
quando estou na cozinha, recebo nova mensagem tua em que escreves "estou"... "bem, só se for na sala" penso...
mas também a sala está envolta pela escuridão... escrevo-te nova mensagem "onde?" e no instante seguinte a enviar vejo uma pequena luz ténue no recanto mais escondido da divisão e um som... o som do teu telemóvel a receber a mensagem...
aproximo-me lentamente e vejo um vulto... o teu vulto... estás sentada no chão encostada à parede... as pernas flectidas pressionando as coxas contra o peito, os braços a envolvê-las e a cabeça repousada nos joelhos...
acendo um pequeno candeeiro que se encontra um pouco afastado e volto para junto de ti... baixo-me ficando de joelhos... passo a mão pelo teu cabelo...
- o que é que se passa contigo? - pergunto enquanto deixo a mão repousar no teu ombro...
- estou... estou com me... medo - dizes de maneira embargada e a soluçar...
- mas o que é que se passou contigo para estares assim? - pergunto ao fazer deslizar as minhas mãos pelo teu cabelo e a levantar-te a cabeça...
ao ver o teu rosto humedecido pelas lágrimas e as olheiras acentuadas sinto uma dor no peito por não ter estado por perto para te ter protegido...
- o que é que te aconteceu? - pergunto preocupado enquanto tento enxugar as lágrimas com os dedos...
- tenho ouvi... ouvido ba... barulhos e es...estou com me... medo... - dizes enquanto novas e abundantes lágrimas voltam a surgir nos teus olhos...
- é normal ouvirem-se barulhos, as casas estão todas encostadas umas às outras - digo enquanto tento em vão enxugar as lágrimas...
- s... sim mas pa... parece que es... estão a ten... tentar entrar den... dentro de casa... - dizes, enquanto, pela primeira vez desde que estou junto a ti, me olhas nos olhos...
o que outrora eram olhos dóceis e misteriosos, estavam agora assustados e raiados de sangue por estares a chorar...
- não tenhas medo - tento acalmar-te, abraçando-te - não vai entrar aqui ninguém... a porta está trancada... e além disso, agora estou aqui para te proteger como sempre disse que o faria...
- eu sei... - dizes, enquanto noto que começas a acalmar a respiração - sempre me disseste que me protegerias e aqui estás a...
interrompo-te pondo um indicador sobre os teus lábios... os mesmos lábios suaves que sonho em beijar mas que agora se encontram algo contraídos...
- não penses nisso agora... respira com calma... vai ficar tudo bem... - digo, enquanto me encosto à parede e te puxo para junto do meu peito e nos abraçamos...
- quando te enviei a mensagem tive medo que não viesses... - dizes enquanto me abraças com mais força...
beijo-te a testa e esfrego a minha mão nas tuas costas para aquecê-las...
- e não vinha porquê? se estavas a precisar de mim, tinha mesmo que vir... - digo enquanto te envolvo mais no meu abraço - ... fosse a que horas fosse... agora relaxa... descansa... estou aqui...
o que era outrora uma respiração aflita, entrecortada por soluços e lágrimas é agora uma respiração mais calma e pausada... o rosto mais sereno... e os olhos, apesar de fechados, sem vestígios de lágrimas...
e assim ficamos em silêncio durante algum tempo... segundos, minutos, horas? sinceramente não sei... e não importa nada...
apercebo-me que adormeceste vencida pelo cansaço... lentamente, levanto-me trazendo-te comigo como se soubesses o que estava a fazer... e seguro-te ao colo...
avanço pela casa e, antes de entrar no teu quarto, acendo a luz do corredor para ter claridade e ver o caminho até à tua cama... avanço lentamente pelo teu quarto e deito-te calmamente na cama...
aconchegas-te e tapo-te com a roupa da cama enquanto dormes...
ponho o candeeiro que está em cima da mesinha de cabeceira, no chão e acendo-o...
vou à sala buscar um cobertor que vi em cima do sofá, apago a luz do candeeiro e vou à casa de banho buscar a toalha das mãos...
apago a luz do corredor e encosto a porta do quarto... ponho a toalha das mãos por cima do candeeiro para quebrar o excesso de claridade para apenas uma ténue luz de presença... descalço-me e sento-me encostado à cama, mesmo ao lado de onde estás a dormir... embrulho-me ao cobertor e ali fico a dormitar...
não sei quanto tempo passou... apenas que sinto algo a tocar-me na clavícula esquerda e a ficar lá... parado...
toco-lhe com a minha mão direita e sinto uma mão... a tua mão esquerda que, ao sentir a minha, procura entrelaçar os dedos neles...
- dormiste aí? - perguntas suavemente...
- sim, dormi um pouco - respondo, inclinando a cabeça para junto das mãos...
- tu amas-me...
- sim... mas neste momento estou aqui como teu amigo... apenas e só como tal... e ao estar aqui a apoiar-te é um privilégio que mais ninguém tem... és a única mulher que passeia no meu coração...
- passeia?
- passeia... vagueia... habita... vive... a única pessoa que conhece o meu Ser... a minha Essência... que vai conhecendo o meu coração...
- mas que no fundo me ama...
- sim, amo... sabes... ou não... amo amar-te!! - digo enquanto rodo o meu corpo e te olho nos olhos - 99% do tempo sabe muito bem e 1% é quando estou a dormir sem sonhar contigo... e aí sabe "apenas" bem... até te encontrar no meu sonho...
- como é que significo tanto para ti?
- és tanto em mim em tão pouco tempo... mas que já estás tão enraizada que as braças (braços) me envolvem quando me sinto triste e me amparam... me protegem... e, sem pedir nem oferecer, o sentimento é mútuo... de te amparar... proteger... fazer rir no final de um dia... com as brincadeiras algo cúmplices... e isto faz-me sentir em paz comigo e transmitir-te alguma dessa paz...
sorris e abres a boca para dizer algo que interrompo...
- mas nada disso agora interessa... agora sou e estou aqui, tal como disse há pouco, apenas e só como amigo... um amigo que tem um feitio às vezes nada fácil tal como todas as pessoas... um feitio que vem à superfície por alguma frustração e tristeza por algumas pessoas e situações não estarem bem... mas o que interessa agora é que fiques bem, combinado?
acenas com a cabeça dizendo que sim e sorris... o teu sorriso está a querer estar de volta...
e vai voltar...
nem sempre o amor se constrói... surge do nada e é vivido assim e, muitas vezes volta ao ponto de onde surgiu... ao nada...
mas um verdadeiro e puro amor tem de ser construído pelos alicerces... pela amizade... pura e verdadeira... e é isso que deve ser feito... dia após dia... se um dia essa amizade se tornar em amor, o que só o tempo o dirá, já terá os seus alicerces construídos com base na amizade, no carinho, na entreajuda, na compreensão, no respeito...
se não se tornar em amor, permanecerá numa pura e verdadeira amizade...

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