
"- vou dormir mas antes vou beber um chá" dizes num pequeno instante antes de afastares o teu corpo do meu e te levantares do sofá. observo-te como se o fizesses em câmara lenta mas que, de repente, acelera apenas dando conta quando te sentas no meu colo de frente para mim.
coloco o livro que estava a ler no sofá, deixando o marcador na página em que havia sido subitamente interrompido. por sinal, bem interrompido pois a história está meio embrulhada e é preferível o momento que se aproxima ao que se estava a ler.
colocas as mãos no meu rosto, uma de cada lado, de modo a ficar quase com o mesmo imobilizado enquanto me perguntas se gosto de ti. quando tento dizer que sim, usas as tuas mãos para me rodar a cabeça de um lado para o outro dizendo que não. sorris. sorrio. perguntas se gosto muito de ti e o resultado é o mesmo quando me rodas a cabeça fazendo-te soltar uma pequena gargalhada à qual te acompanho. perguntas se te amo. nesse instante, coloco as minhas mãos sobre as tuas e impeço-as de se mexerem. durante breves segundos prendemos o olhar um no outro e, sincronizadamente, fazemos a cabeça movimentar-se suavemente algumas vezes de cima para baixo.
sorrimos para depois te abraçar. como por ciúmes, os teus braços envolvem-me deixando-nos tão juntos como se fossemos um só. fundidos, emaranhados no sentimento que nos une, que nos liga muito mais do que fisicamente.
sinto o bater do teu coração no meu peito, compassadamente com o meu. o quente da tua respiração no meu pescoço. as tuas mãos nas minhas costas. beijo-te o pescoço ternamente sentindo a pele arrepiar-se e afastando-te de mim ficas a olhar-me nos olhos por um instante preso no tempo mesmo antes de te voltares a aproximar. roças ao de leve os teus lábios nos meus e afastas-te alguns milímetros sentindo a tua respiração misturar-se na minha.
ainda com os braços à tua volta, puxo-te para mim e beijo-te uma e outra vez. o avanço e recuo é agora mútuo num constante movimento lento e suavemente misturando sabores num só.
durante o que parece ser um segundo, deixamos a nossa essência tocar-se, conhecer-se, unir-se, fundir-se.
já com o teu rosto no meu peito beijo-te o cabelo sentindo o teu cheiro.
"- já bebi o meu chá, agora vou dormir" dizes sussurrando antes de sorrires.
"- mas não saíste daqui" pergunto fingindo-me surpreso.
"- pois não. és tu o meu chá, aquele que me tranquiliza, que me acalma depois de um dia movimentado. o chá que me adoça a vida, que faz com que tenha sentido e sabor" dizes depois de olhares séria nos meus olhos. roubas-me um beijo e levantaste rapidamente não me deixando segurar-te. voltas-te para trás dizendo boa noite e piscas o olho antes de saíres da sala em direcção ao quarto.
sorrio e fico a pensar no que acabas de dizer.
levanto-me e vou à gaveta onde tens folhas brancas e tiro uma juntamente com uma caneta e uma paleta. ao fechar a gaveta, esta prende antes de bater ao fechar fazendo algum ruído. sento-me no tapete encostando as costas ao sofá.
"- que barulho foi aquele?" perguntas ao espreitares à porta.
"- desculpa. foi ao fechar a gaveta onde tens as folhas" respondo piscando o olho.
"- vais escrever?"
"- sim e tu vais dormir."
"- hmm... fiquei curiosa sobre o que vais escrever" dizes sorrindo.
"- vais ter que ficar até amanhã de manhã" digo pondo a ponta da língua de fora.
"- ooh... ok, está bem. boa escrita!" dizes retribuindo o gesto da ponta da língua de fora antes de ires para o quarto.
sorrio e preparo-me para te escrever.
"carta de amor nº ___
meu amor...
como se costuma dizer, a vida encarrega-se de pôr e manter na nossa vida as pessoas que nos fazem bem e hoje, tal como todos os outros dias desde que entrámos na vida de um e do outro, me sinto eternamente agradecido por tal ter acontecido.
muitas vezes julgamos as pessoas pelo que elas parecem e não pelo que realmente são. algumas vezes ficamos surpreendidos por passarem anos até que, num lampejo, as conheçamos realmente e fiquemos surpreendidos. e connosco não foi diferente.
a verdadeira beleza, a verdadeira perfeição da pessoa está dentro de si, na sua essência e não no seu aspecto físico. se podias ser diferente fisicamente? não, não podias pois és como és e é isso que te faz ser aos meus olhos, ao meu coração.
já eu, não tenho um corpo de modelo e, o não esforçar por o ter, não é isso que me faz ser quem sou. quem e como sou quase ninguém sabe realmente e tu sabe-lo quase desde o primeiro dia.
meu amor... obrigado por tudo!!
junto a esta carta, como sempre, deixo-te uma flor. junta-a a todas as outras.
e nunca te esqueças de sorrir... sempre!!"
sorrio enquanto me levanto e guardo a caneta e a paleta na gaveta fechando-a com cuidado para não voltar a fazer barulho.
ponho a carta no sítio do costume e junto-me a ti.
"- escreveste?" dizes ao sentires ser abraçada.
"- sim. apenas não sei se vais gostar."
"- sabes que gosto sempre" dizes antes de sorrires e dando-me uma pequena cotovelada.
"- vamos dormir?" pergunto beijando-te a testa.
"- sim, quero entrar no teu sonho"
nunca deixes de sonhar!!
já dizia o poeta António Gedeão, "o sonho comanda a vida".
por vezes o sonho sofre mutações com o passar dos dias, dos meses, dos anos, mas nunca deve deixar de ser sonhado pois é ele que nos mantém lúcidos a querer dar um sentido a esta viagem que se chama vida.
por vezes ama-se alguém que parece incompatível no ritmo com que se vive a vida mas, quem sabe, se se complementam ao ponto de haver um equilíbrio, o dito yin-yang, entre ambos e com isso ser-se o que realmente importa, ser-se feliz!!
nunca deixes de sonhar!!
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